domingo, 29 de janeiro de 2017

A árvore do conhecimento - As bases biológicas da compreensão humana - Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela (2001)

O centro da argumentação de Maturana e Varela é constituído por duas vertentes. A primeira, como vimos, sustenta que o conhecimento não se limita ao processamento de informações oriundas de um mundo anterior à experiência do observador, o qual se apropria dele para fragmentá-lo e explorá-lo. A segunda grande linha afirma que os seres vivos são autônomos, isto é, autoprodutores - capazes de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio: vivem no conhecimento e conhecem no viver. (p. 14)

Hoje, os dois autores seguem caminhos diferentes. No entanto, a diversidade de suas linhas de trabalho atuais não elimina um traço básico do ideário original: o que sustenta que os seres vivos e o mundo estão interligados, de modo que não podem ser compreendidos em separado. (p. 15)

Em linhas gerais, essa teoria sustenta a objetividade, mas também a subjetividade do observador, que havia sido preterida pelos modelos teóricos representacionistas de ciência cognitiva. (p. 16)

Tendemos a viver num mundo de certezas, de solidez perceptiva não contestada, em que nossas convicções provam que as coisas são somente como as vemos e não existe alternativa para aquilo que nos parece certo. (p. 22)

Não vemos o "espaço" do mundo, vivemos nosso campo visual; não vemos as "cores" do mundo, vivemos nosso espaço cromático. (p. 28)

Essa situação especial de conhecer como se conhece é tradicionalmente esquiva para nossa cultura ocidental, centrada na ação e não na reflexão, de modo que nossa vida pessoal é, geralmente, cega para si mesma. (p. 30)

Nosso objetivo, portanto, está claro: queremos examinar o fenômeno do conhecer tomando a universalidade do fazer no conhecer (esse fazer surgir um mundo), como problema e ponto de partida para que possamos revelar seu fundamento. (p. 33)

A magia, por exemplo, é tão explicativa para os que a aceitam como a ciência o é para os que a adotam. (p. 34)

Devido à diversificação e plasticidade possíveis na família das moléculas orgânicas, tornou-se por sua vez possível a formação de redes de reações moleculares, que produzem os mesmos tipos de molécula que as integram e, também, limitam o entorno espacial no qual se realizam. Essas redes e interações moleculares, que produzem a sim mesmas e especificam seus próprios limites são, como veremos adiante, seres vivos. (p. 46)

Nossa proposta é que os seres vivos se caracterizam por - literalmente - produzirem de modo contínuo a si próprios, o que indicamos quando chamamos a organização que os define de organização autopoiética. (p. 52)

A característica mais peculiar de um sistema autopoiético é que ele se levanta por seus próprios cordões, e se constitui como diferente do meio por sua própria dinâmica, de tal maneira que ambas as coisas são inseparáveis. (p. 55)

Se uma célula interage com uma molécula X, incorporando-a a seus processos, o que acontece como consequência da interação não está determinado pelas propriedades dessa molécula, e sim pela maneira como ela é "vista" ou tomada pela célula, ao incorporá-la à sua dinâmica autopoiética. (p. 61)

Nós, como seres vivos - e como veremos, como seres sociais -, temos uma história: somos descendentes por reprodução não apenas de nossos antepassados humanos, mas também de ancestrais muito diferentes, que retrocedem no tempo mais de três bilhões de anos. (p. 66)

É importante notar que, em consequência de como ocorre o fenômeno da réplica, as unidades produzidas são historicamente independentes umas das outras. O que acontece a qualquer delas em sua história individual não afeta as que lhes sucedem na série de produção. O que acontecer ao meu Toyota, depois que eu o comprar, em nada afetará a fábrica Toyota, que continuará produzindo imperturbavelmente seus carros. Em suma: as unidades produzidas por réplicas não constituem entre elas um sistema histórico. (p. 71)

A ontogenia é a história de mudanças estruturais de uma unidade, sem que esta perca a sua organização. (p. 86)

Todas as organelas de uma célula (isto é, as mitocôndrias, os cloroplastos e seu núcleo, por exemplo) parecem ter sido ancestralmente procariontes de vida livre. (p. 102)

A história das mudanças estruturais de um dado ser vivo é sua ontogenia. Nessa história todo ser vivo começa com uma estrutura inicial, que condiciona o curso de suas interações e delimita as modificações estruturais que estas desencadeiam nele. Ao mesmo tempo, o ser vivo nasce num determinado lugar, num meio que constitui o entorno no qual ele se realiza e em que ele interage, meio esse que também vemos como dotado de uma dinâmica estrutural própria, operacionalmente distinta daquela do ser vivo. (p. 107)

Repitamos: a conservação da autopoiese e a manutenção da adaptação são condições necessárias para a existência dos seres vivos: a mudança estrutural ontogenética de um ser vivo num meio será sempre uma deriva estrutural congruente deste com o meio. Essa deriva parecerá ao observador "selecionada" pelo meio, ao longo da história de interações do ser vivo enquanto ele viver. (p. 116)

Para resumir: não há sobrevivência do mais apto, o que há é sobrevivência do apto. Trata-se de condições necessárias, que podem ser satisfeitas de muitas maneiras, e não da otimização de critérios alheios à própria sobrevivência. (p. 127)

Esse experimento - como muitos outros que foram feitos desde os anos 50 - pode ser visto como prova direta de que o funcionamento do sistema nervoso é a expressão de sua conectividade ou estrutura de conexões, e que o comportamento surge de acordo com o modo como se estabelecem nele suas relações internas de atividade. (p. 141)

Também sabemos que o fato desse animal se comportar de maneira diferente revela que seu sistema nervoso é diferente do dos outros, como resultado da privação materna transitória. (p. 142)

O que a presença do sistema nervoso faz é expandir o domínio de condutas possíveis, ao dotar o organismo de uma estrutura espantosamente versátil e plástica. (p. 154)

Já vimos que o comportamento não é uma invenção do sistema nervoso. Ele é próprio de qualquer unidade vista num meio onde especifica um domínio de perturbações, e mantém sua organização como resultado das mudanças de estado que tais perturbações nela desencadeiam.
É importante ter isso em mente, porque em geral vemos o comportamento como algo característico de animais com sistema nervoso. (p. 158)

Voltemos um pouco á ameba que está a ponto de engolir um protozoário. O que acontece nessa sequência pode ser resumido assim: a presença do protozoário gera uma concentração de substâncias no meio que são capazes de interagir com a membrana da ameba, desencadeando mudanças de consistência protoplasmática que resultam na formação de um psudópodo. Este, por sua vez, produz, alterações na posição do animal, que se desloca, modificando assim a quantidade de moléculas do meio que interagem com sua membrana. Esse ciclo se repete, e a sequência de deslocamento da ameba, portanto, produz-se por meio da manutenção de uma correlação interna entre o grau de modificação de sua membrana e as mudanças protoplasmáticas que percebemos como psudópodos. (p. 164)

O nível de atividade e o tráfego químico entre duas células - nesse caso, uma muscular e um neurônio - modulam a eficácia e o modo de interação que ocorre entre elas durante sua contínua mutação. (p. 187)

Não há contradição no comportamento do antílope, na medida em que ele se realiza, em sua individualidade, como membro do grupo: é "altruisticamente" egoísta e "egoisticamente" altruísta, porque sua realização individual inclui sua pertença em relação ao grupo que integra. (p. 219)

O pesquisador começava com uma pergunta oral como: "Quem...?" e os espaços em branco eram completados por uma imagem projetada num dos campos visuais, como por exemplo: "É você?". Essa pergunta, apresentada em ambos os lados, recebeu a mesma resposta: "Paul". Diante da questão: "Que dia será amanhã?", a resposta foi, adequadamente: "Domingo". Quando feita ao hemisfério esquerdo, a pergunta: "O que você quer ser quando crescer? foi respondida assim: "Piloto de automóvel de corrida". O que é fascinante, porque a mesma questão, apresentada ao lado direito, tivera como resposta: "Desenhista". (p. 252)

No curso de uma interação linguística oral, parecia que p hemisfério esquerdo era o predominante nele. Por exemplo, quando se projeta uma ordem escrita para o hemisfério direito, tal como "ria", Paul de fato fingia rir. Quando perguntavam ao hemisfério esquerdo o porquê do riso, o rapaz respondia algo como: "É que vocês são engraçados...". Quando surgiu a ordem "Coce-se", a resposta sobre porque se coçava foi: "Tenho coceira". Ou seja, o hemisfério predominante não teve problemas para inventar alguma coerência descritiva para explicar as ações que vira ocorrer mas que estavam fora de sua experiência direta, devido à sua desconexão com o outro hemisfério. (p. 253)

Toda tradição se baseia naquilo que uma história estrutural acumulou como óbvio, como regular com estável, e a reflexão que permite ver o óbvio só funciona com aquilo que perturba essa regularidade. (p. 265)

Não é o conhecimento, mas sim o conhecimento do conhecimento, que cria o comprometimento. Não é saber que a bomba mata, e sim saber o que queremos fazer com ela que determina se faremos explodir ou não. Em geral, ignoramos ou fingimos desconhecer isso, para evitar a responsabilidade que nos cabe em todos os nossos atos cotidianos, já que todos estes - sem exceção - contribuem para formar o mundo em que existimos e que validamos precisamente por meio deles, num processo que configura o nosso porvir. Cegos diante dessa transcendência de nossos atos, pretendemos que o mundo tenha um drvir independente de nós, que justifique nossa irresponsabilidade por eles. (p. 271)


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