O Estado português começara a estabelecer, a partir de 1540, uma série de mecanismos que lhe haviam permitido aumentar o controle, a coerção e o domínio sobre seus súditos. (p. 33)
Para cobrar e controlar, vigiar e punir seus súditos, submetendo-os ao cumprimento de uma série de novas obrigações civis, os Estados modernos emergentes se viram na contingência de criar vastos e complexos aparelhos burocráticos - um conjunto de órgãos e servidores responsáveis pelo funcionamento e manutenção do sistema judiciário, do fisco e das forças armadas -, ou seja, o corpo administrativo como um todo. (p. 34)
Com o passar dos anos, desembargadores, juízes, ouvidores, escrivães, meirinhos, cobradores de impostos, vedores, almoxarifes, administradores e burocratas em geral - os chamados "letrados" - encontraram-se em posição sólida o bastante para instituir uma espécie de poder paralelo, um "quase Estado" que, de certo modo, conseguiria arrebatar das mãos do rei as funções administrativas. (p. 34)
As autoridades judiciárias e fiscais que, a partir de março de 1549, iriam desembarcar no Brasil com a missão de instalar o Governo Geral enquadram nesse perfil. O ouvidor-geral (grosso modo, uma espécie de ministro da Justiça), desembargador Pero Borges, e o provedor-mor (quase um ministro da Fazenda) Antônio Cardoso de Barros, além de ganharem bastante bem e terem obtido seus cargos graças a indicações nos meandros da Corte, desempenhavam suas funções assessorados por contingentes de funcionários "em número sem dúvida desproporcionado para as coisas do governo". Além disso, ambos - Pero Borges antes de vir ao Brasil e Cardoso de Barros depois - foram acusados de desviar dinheiro do Tesouro Régio. (p. 35)
Tão logo a ortodoxia do catolicismo tornou-se uma obsessão, toda e qualquer atividade intelectual que sugerisse maiores liberdades individuais passou a ser vista como "heterossexual luterana" - e, por conseguinte, reprimida com vigor. (p. 36)
A plena instauração do Tribunal do Santo Ofício em Portugal, ocorrida não por acaso em fins de 1547, deu-se menos por zelo religioso e mais como instrumento de vigilância e controle. (p. 36)
Depois de se livrarem de todos os humanistas portugueses ligados à Reforma - difamando-os e entregando-os à Inquisição -, os jesuítas se tornaram confessores de D. João III e responsáveis diretos pelo ensino em Portugal. (p. 36)
Destituído de suas complexidades administrativas e de seus desdobramentos políticos, econômicos e até ideológicos, o Governo Geral era basicamente um plano de ocupação militar do Brasil. (p. 53)
Antes do Concílio de Trento, o celibato do clero ainda não tinha a importância que viria a adquirir. Mesmo assim, a situação do abade já suscitava comentários, por ele "viver com bastante dissolução e pouca memória de seu estado". Amancebado com Mécia Rodrigues de Faria, João de Sousa teve sete filhos. (p. 54)
Apesar da fiscalização mais rígida, "nem por isso acabaram as fugas de prestação de contas a Fazenda, que se faziam sob as mais variadas formas".
A passagem do tempo - pelo menos do tempo de serviço - também parece ter sido uma preocupação constante na Casa dos Contos, tanto que lá foi instalado um dos cinco únicos relógios então existentes em Lisboa. Só que, em geral, ele estava uma hora atrasado com relação aos demais. (p. 58)
A aplicação da justiça ajudava a manter intacto um dos preceitos fundamentais do mundo ibérico: o de que aquela era uma sociedade desigual, rigidamente hierarquizada, na qual "havia homens de maior condição e de baixa condição", divididos de acordo com a classe a que pertenciam. Tal desigualdade "fazia parte da representação mental coletiva, era algo natural" e, justamente por isso, "encontrava sancionamento cabal na lei geral do reino".
Os crimes eram punidos de acordo com a "qualidade" do infrator, fosse ele um "peão" ou um "fidalgo". Conforme as Ordenações manuelinas, "peões" (ou "homens a pé", que não podiam servir ao rei a cavalo, como os "cavaleiros") eram pessoas de "baixa condição". A "pena vil" (pena de morte) e os açoites (em geral executados em público, nos pelourinhos) estavam reservados quase que exclusivamente a eles.
Acima dos peões, escalonavam-se as pessoas de "maior condição": escudeiros, cavaleiros, vereadores, magistrados, escrivães - vários deles "fidalgos" ("filhos de algo"), tidos como "gente limpa e honrada" e, portanto, livres de açoites e da condenação à morte (a não ser em casos excepcionais). A ascensão social não propiciava, portanto, apenas melhores condições de vida: representava também a obtenção de uma série de privilégios jurídicos, além, é claro, da isenção de impostos. (p. 59)
Uma comissão parlamentar averiguou detidamente as contas e apurou que Borges "recebia indevidamente quantias de dinheiro que lhe eram levadas à casa, provenientes das obras do aqueduto, sem que fossem presentes nem o depositário nem o escrivão". O prosseguimento das investigações comprovou que Pero Borges desviara 114.064 reais - equivalentes a um ano de seu salário como corregedor. (p. 64)
Após uma série de reuniões na corte, algumas delas com o rei, os três principais servidores da Justiça no Brasil conseguiram embolsar seus salários antes de partir de Portugal, e só então prepararam-se para zarpar para o Brasil na frota do governador-geral, que já se encontrava fundeada no porto, aguardando por eles. (p. 65)
Dos territórios de exílio, o Brasil, era, ao menos de início, tido como o mais temível. Condenados reincidentes, já enviados para Goa ou Angola, ao se tornar um estorvo naquelas colônias, acabavam seus dias na América portuguesa. (p. 67)
Na frota de Tomé de Sousa, os condenados estavam sob a guarda de um certo Antônio Rodrigues e Almeida, "criado do rei". Seu embarque e distribuição pelos porões das seis embarcações há de ter sido observado com temor e desprezo por seus futuros companheiros de viagem, afinal, além da ameaça potencial que representavam, alguns homens subiram a bordo com aparência medonha: além de postos a ferros (ou "ferrados") muitos estavam "desorelhados". O motivo para tal prática não constituía mera crueldade: os elementos mais perigosos tinham as orelhas cortadas para que pudessem ser imediatamente identificados, pois, uma vez no Brasil, viveriam em liberdade. (p. 69)
Ao retornar da peregrinação pelo Caminho de Santiago, Manuel da Nóbrega tornou-se o primeiro "procurador dos pobres" da Companhia de Jesus em Portugal. Era um cargo de confiança exercido por quem conhecia Direito e estava apto a defender os desvalidos em geral: "viúvas, enfermos, encarcerados e todos aqueles que não podem contratar um advogado". (p. 73)
Em 1546, Portugal tornou-se sede da primeira Província da Companhia de Jesus fora de Roma. Para o cargo provincial, Inácio de Loyola, obviamente, escolheu Simão Rodrigues. Com seu poder fortalecido e os laços com a Coroa estreitados, mestre Simão não precisou nem de meia década para alcançar um de seus principais objetivos: assumir o controle absoluto da educação no reino e em suas colônias, especialmente no Brasil, e denunciar os intelectuais humanistas à inquisição. O humanismo jamais voltaria a florescer em Portugal bem em suas colônias. (p. 76)
No instante em que os navios de Tomé de Sousa soltam as amarras para singrar a rota que Pedro Álvares Cabral percorrera meio século antes, a lei e a ordem, o poder burocrático e o longo braço do fisco avançam rumo ao Brasil. A armada também trazia em seu bojo a intrincada teia de um funcionalismo público ineficiente e corrupto e a voracidade de um sistema tributário pesado e injusto. Representada por Manuel da Nóbrega, a Igreja igualmente enviava suas sementes. E elas também vingariam, enraizando a mentalidade jesuítica na nova terra.
A colônia se desenvolveria sob o signo do dogmatismo: sem livros, sem universidades, sem imprensa e sem debates culturais - em síntese, sem a diversidade e o frescor do humanismo renascentista. "A inteligência brasileira viria a constituir-se submetida à direção exclusiva da Companhia de Jesus, sob a égide da Contra-Reforma e do Concílio de Trento", diagnosticou o crítico Wilson Martins em sua História da Inteligência Brasileira. "Esse desejo de perpetuar a ignorância (...) condicionaria as perspectivas mentais do Brasil por três séculos." (p. 77)
A essa mixórdia é preciso acrescentar a indispensável "matalotagem", ou seja, as provisões necessárias para o sustento de meio milhar de pessoas durante três meses de viagem marítima. A água, o vinho e os mantimentos seguiam em cerca de seiscentos tonéis de madeira de aproximadamente 1,5 metro de altura por 1 metro de diâmetro. A capacidade dos navios era medida justamente pelo número de tonéis que podiam ser embarcados- origem da palavra "tonelagem", ainda em uso. Uma nau podia transportar cerca de 150 tonéis; uma caravela, uns oitenta. (p. 80)
Mesmo com a ausência quase total de mulheres, a esquadra de Tomé de Sousa era, como quase a maioria delas, um pedaço flutuante de Portugal. Transportava gente de todas as classes e todos os matizes, da fidalguia à arraia-miúda e trazia intactos os desvão da sociedade ibérica. Uma mera passada de olhos na lista de passageiros, identificando seus nomes e os salários que aqueles homens receberiam no Brasil revela que a mesma desigualdade existente em Portugal estava sendo transplantada para os trópicos. (p. 84)
As múltiplas determinações do Regimento Régio eram, ainda assim, bastante similares aos forais das capitanias hereditárias, entregues 15 nos antes aos donatários. A diferença primordial estava na centralização do poder: a maior parte dos privilégios anteriormente concedidos aos capitães do Brasil era transferida agora para as mãos do governador-geral, representante do monarca. As questões tributárias e jurídicas também passavam a ser função exclusiva dos homens do rei, sem a intermediação, em geral ineficaz, dos funcionários anteriormente designados pelos donatários. (p. 85)
O desembarque de Tomé de Sousa e seus comandados permanece envolto em aura um tanto fantasiosa, que não encontra base no registro documental. Escrevendo em 1758 (mais de duzentos anos depois dos acontecimentos, portanto), o frei franciscano Antônio Jaboatão arriscou-se a descrever a cena com extraordinário luxo de detalhes. (p. 89)
A brusca do status até então desfrutado por Diogo Álvares é um dos tantos aspectos que revelam a guinada histórica que o Governo Geral provocou no Brasil. Caramuru, afinal, era o típico exemplo da prática até então comum entre os portugueses de "lançarem" náufragos ou degredados nas terras por eles descobertas com a missão de estabelecer os primeiros contatos com os nativos e aprender sua língua. Bem ou mal, Caramuru cumprira aquela missão - e não havia mais lugar para ele agora que a colonização oficial se iniciativa. Em vez do marido de Paraguaçu, quem vai adquirindo importância progressiva é Paulo Dias Adorno, genro de Caramuru, foragido de São Vicente (onde havia matado um colono) e refugiado na Bahia. Em 1554, Paulo Dias Adorno tornou-se cavaleiro da Ordem de São Tiago, com direito a 12 mil reais de tença, ou pensão, por ano. (p. 95)
O auto valia como um contrato para a realização da empreitada, cujo custo não poderia exceder o orçamento previamente aprovado. No entanto, como se cerá, o costume de superfaturar o valor das empreitadas iria se tornar comum na Bahia. (p. 103)
O contador e o escrivão dos Contos, por exemplo, davam expediente das sete às 11 e das 14 às 18 horas. Em caso de falta, os funcionários eram punidos com descontos em seus ordenados: um cruzado para o contador e 200 reais para o escrivão. Mas, como ainda havia pouco movimento, antes de partir em visita de inspeção às capitanias do Sul, em janeiro de 1550, Cardoso de Barros determinou que os oficiais da Fazenda e dos Contos só precisavam trabalhar um período, e apenas nas segundas, quartas e sextas - em tais dias, porém, ficavam obrigados a comparecer ao trabalho, "mesmo que não houvesse o que fazer". (p. 111)
Nas cidades portuguesas, as ruas, além de estreitíssimas - em geral com menos de 30 palmos (cerca de 3 metros) de largura -, ainda eram tomadas pelo avanço das varandas e dos muxarabis, os populares "puxadinhos", que se debruçavam sobre as vias. Revela-se aí mais uma das facetas do conflito entre bem público e propriedade privada. No caso de Salvador, onde o costume de fazer os puxadinhos se repetiu, os interesses particulares em geral se sobrepunha ao bem comum. (p. 115)
A fabricação e venda do "vinho de mel", como então se chamava a cachaça, era proibida por lei sob a alegação de que a bebida "arruinava a saúde da população e danava o povo baixo nas tavernas, onde se seguiam rixas e cenas de sangue". Mas a verdadeira causa da proibição estava na concorrência ruinosa da cachaça ao vinho do reino, "cuja importação muito convinha fomentar e proteger". Contudo, o "vinho de mel" raramente saia de circulação, "ora explorado às escâncaras a despeito das multas ou posturas, ora tolerado por ser a bebida do pobre e também por conveniência de alguns vereadores que eram senhores de engenho, desejosos de explorar o seu mel", segundo Teodoro Sampaio. (p. 121)
Onde foi parar tanto dinheiro? Parte foi gasta, parte desviada. Investigando os papéis da Câmara de Salvador, Teodoro Sampaio pinta um quadro de dissolução geral: "Os infratores, de todos os gêneros, eram contumazes, e as penas não passavam de ameaças. As multas raro se pagavam. Os atravessadores de mercadorias zombavam das medidas que contra seu comércio aladroado adotavam os oficiais da Câmara. Os arrendatários dos impostos conluiavam-se com os mercadores, consentindo que estes fraudassem as almotaçarias."
Quando os pregões de arrematação das empreitadas se encerravam, o nome do vencedor, anunciado com alguma solenidade pelo porteiro da Câmara, raramente causava surpresa. Os empreiteiros loteavam as obras entre si, combinando os lances antecipadamente, muitas vezes em conluio com o leiloeiro, e superfaturando o custo das obras. (p. 125)
Depararam, porém, com uma sociedade mameluca, típica do período inicial da ocupação portuguesa no Brasil, em total desacordo com seus preceitos religiosos e morais. O modo de vida dos colonos era motivo de escândalo e espanto para os jesuítas. "Se contarem todas as casas dessa terra", relatava Nóbrega, "todas acharão cheias de pecados mortais, adultérios, fornicações, incesto e abominações. (...) Não há obediência, nem se guarda um só mandamento de Deus e muito menos os da Igreja." (p. 127)
Se os jesuítas manifestaram grande empenho para acabar com o que consideravam uma imoralidade sexual, o mesmo não se pode dizer da maneira com que enfrentaram a utilização dos indígenas como escravos. (p. 130)
Um dos argumentos de Nóbrega para justificar a escravização dos indígenas estava relacionado ao fato de andarem nus. Por ter escarnecido da nudez de Noé, seu filho Cam foi exilado e condenado à servidão. Em um texto clássico, seu ríspido Diálogo da Conversão dos Gentios, escrito em 1558, Nóbrega afirmaria que, por serem descendestes de Cam, os índios do Brasil "ficaram nus e têm outras mais misérias". O pecado de Cam, convém ressaltar, legitimava também a escravidão dos africanos. Além disso, Nóbrega acreditava na teoria aristotélica da "servidão natural dos povos inferiores". (p. 131)
No Novo Mundo não foi diferente: os nativos ficaram espantados e atemorizados com os flagelos. O impacto foi ainda maior quando, em setembro de 1549, o padre Navarro açoitou-se no centro de uma aldeia indígena, nas cercanias de Salvador - provavelmente a que ficava no monte do Calvário, bem próxima ao centro da cidade -, dizendo aos indígenas "que castigava a si para que Deus não os castigasse a eles". Em breve já eram mais de cem ps índios recém-convertidos que acompanhavam os jesuítas nos "exercícios espirituais". "Muitos se disciplinam com tão grande fervor que causam confusão entre os brancos", relatou Nóbrega a mestre Simão. (p. 133)
Além de viverem amancebados com as "negras da terra", escolhendo sempre "as melhores e de mais alto preço", os padres permitiam e até incentivavam a escravidão dos indígenas, absolvendo os colonos dos "pecados mais abomináveis", tornando-lhes "largo o estreito caminho do céu". Neste sentido, o relato de Nóbrega não poderia ser mais contundente: "Os clérigos dessa terra têm mais ofício de demônios que de clérigos: porque, além de seu exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo, e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas, e que podem ter (os indígenas) salteados, pois que são cães, e outras coisas semelhantes, por escutar seus pecados e abominações, de maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga, senão estes. Penso que, se não fosse pelo favor que temos do governador e dos principais dessa terra, e também porque Deus assim não o quer, já nos teriam tirado as vidas". (p. 134)
No Regimento dado a Tomé de Sousa, o rei afirmara: "A principal coisa que me moveu a povoar as ditas terras do Brasil foi para que a gente dela se convertesse à nossa santa fé católica". E quem melhor do que os jesuítas para fazê-lo? (p. 135)
Conscientes de que a catequese dos indígenas era arma auxiliar de dominação e colonização, os jesuítas articularam, sob a liderança de Nóbrega, uma ardilosa estratégia baseada em três vetores: a doutrinação das crianças, a desmoralização dos pajés e a conversão dos líderes tribais. (p. 136)
Nóbrega, porém, estabelecia uma precondição: o bispo deveria vir "não para fazer-se rico, porque a terra é pobre, mas para buscar as ovelhas tresmalhadas do rebanho de Jesus Cristo". (p. 137)
Conforme os anseios de Nóbrega, Sardinha de fato viria para inspirar terror. Mas, ao contrário do que gostaria o jesuíta, o bispo estava disposto a cobrar caro por seus serviços. (p. 137)
Vindo da riquíssima Índia, onde já fora acusado de corrupção e desvio de verbas pelo governador de Goa, Garcia de Sá, o bispo teria ficado "mui desgostoso com a pobreza da terra", conforme disse Nóbrega em carta aos seus superiores. Sardinha então voltou sua atenção exclusivamente para os colonos - e fez dessa relação sua principal fonte de renda, na medida em que tratou de substituir penas eclesiásticas por "penas pecuniárias". Em outras palavras, o prelado persuadiu muitos dos portugueses estabelecidos no Brasil a pagar pela absolvição de seus pecados - literalmente, e em moeda sonante. (p. 140)
Tamanha eficiência não parece ter sido suficiente. Embora tenha descrito suas ações minuciosamente, rogando ajuda e proteção do monarca, Coelho nunca obteve resposta aos seus pedidos, nem favores do rei. Suas cartas, sensatas e em tom progressivamente suplicante, forjam um retrato fiel do quadro de desregramento e desrespeito à lei que então imperava no Brasil. (p. 146)
Embora as condições de navegabilidade fossem terríveis, as "capitanias de cima" haviam sido doadas aos mais ricos e poderosos donatários, todos funcionários do tesouro real, entre os quais Fernão d'Álvares de Andrade (um dos "pais" do Governo geral, como já se viu( e o agora provedor-mor do Brasil, Antônio Cardoso de Barros. Por que homens daquela importância, diretamente ligados ao rei, tinham sido agraciados com lotes tão problemáticos? Porque os portugueses estavam convictos de que , pela via do rio Amazonas (então chamado de Maranhão), poderiam chegar ao Peru - uma fonte virtualmente inesgotável de ouro e prata. (p. 149)
Pero Borges não prendeu Bezerra, "por ser ele clérigo de missa", embora aquele homem tivesse sido responsável por gravíssimos distúrbios em três capitanias. (p. 152)
As opiniões supostamente anticlericais de Tourinho foram a justificativa de seus subordinados para iniciar um movimento contra ele. No dia 24 de novembro de 1546, o donatário de Porto Seguro foi preso pelos revoltosos na própria casa. Na semana seguinte, o padre francês Bernard de Aurejac iniciou o "julgamento" do capitão. O famigerado clérigo João Bezerra participou da conspiração, e tomou parte do júri. Acusado de heresia, Tourinho foi considerado culpado do desfecho de um processo espúrio. Em fevereiro de 1547, enviaram-no a ferros para Portugal, direto para o Tribunal do Santo Ofício. Em junho daquele ano, Tourinho já se encontrava em Lisboa, em prisão domiciliar, em sua casa, na rua do Poço. Lá permaneceu até 8 de outubro de 1550, quando começou a ser interrogado pelos inquisidores. Foi inocentado, mas jamais retornou ao Brasil. Tourinho morreria em outubro de 1553, praticamente na miséria. (p. 154)
E o relato que nunes enviou depois de chegar ao Sul do Brasil iria despertar em Nóbrega uma verdadeira obsessão: mudar-se para lá e catequizar os afáveis Carijó.
Tal propósito levaria o líder dos jesuítas no Brasil a passar três anos nos sertões de Piratininga, onde ele iria fundar o colégio e a igreja de São Paulo - estabelecimentos que dariam origem à cidade do mesmo nome. (p. 167)
Em franco litígio com Brás Cubas, capitão-mor de São Vicente, e supostamente arrependido de suas ações escravagistas, Pero Correia tornou-se o principal auxiliar de Leonardo Nunes, ajudando-o também como "língua" (ou intérprete). Mais tarde, foi aceito por Nóbrega na Companhia de Jesus, à qual doou todas as suas terras em São Vicente e em Peruíbe. (p. 169)
A segunda vila, Itanhaém, localizava-se na vasta planície litorânea que se estende a sudoeste de São Vicente, na direção de Peruíbe, Iguape e Cananéia - quase no limite entre as possessões de Portugal e Castela. Naqueles "campos ao longo do mar", Tomé de Sousa encontrara "outros moradores que estavam derramados, e eu os ajuntei e fiz cercar e viver em ordem". Ali, além dos aventureiros esparramados, o governador avistou marcos limítrofes colocados pelos castelhanos "de São Vicente até o rio da Prata". Aqueles "padrões", ou colunas de pedra, com os brasões de Carlos V, Tomé de Sousa mandou "tirar e deitar ao mar e pôr, no lugar, os de Vossa Alteza". (p. 175)
A seguir, Nóbrega pede que intercedam até junto ao papa para que João Ramalho possa casar com Bartira, "não obstante que haja conhecido outra sua irmã e quaisquer outras parentes dela (...) e se isso (o processo de regularização do casamento) custar alguma coisa, ele o enviará daqui em açúcar". (p. 184)
Para oeste, pelas atuais rua Direita e do Ouvidor, descendo a abrupta encosta da montanha rumo ao vale do Anhangabaú, nos arredores da atual praça da Bandeira, começava o Caminho do Sertão. Ele passava pelos atuais bairros de Perdizes e Pinheiros - povoados por bandos de perdizes e repletos de araucárias - e, depois de subir pela atual rua da Consolação, chegava ao topo do Caaguaçu (onde agora fica a avenida Paulista), seguindo para zona de campos hoje pertencente aos estados do paraná e Santa Catarina - o território dos Carijó e dos Guarani, cuja conversão ao cristianismo continuava sendo o principal objetivo do padre Manuel da Nóbrega. (p. 187)
Ainda assim, a expansão portuguesa sobre as terras que legalmente pertenciam à Espanha seria um processo lento - e a própria vila de São Paulo só iria assumir posição mais relevante dali a um século, e apenas porque Nóbrega tivera o discernimento de fundar seu colégio justo no entroncamento das trilhas que, a partir de 1640, permitiriam aos "bandeirantes" paulistas percorrerem (e conquistarem) toda aquela região. (p. 189)
Ao mestre Simão Rodrigues, Nóbrega disse: "Não creio que esta terra fora avante, com tantos contrastes como teve, se houvera outro governador. Dizem que ele se vai o ano que vem. Tememos muito vir outro que destrua tudo. De quantos de lá vieram, nenhum teve amos a esta terra, se não ele, porque todos querem apenas fazer em seu proveito, ainda que seja à custa da terra, porque esperam de logo se ir dela. Parece-me que se el-Rei lhe der o que tem lá e lhe casar a sua filha e lhe mandar sua mulher, folgará muito de viver cá, não por governador, mas por morador". (p. 200)
Formado em filosofia e direito civil pela Universidade de Coimbra, Grã entrara para a Companhia de Jesus em junho de 1543, aos 20 anos de idade. Era um ferrenho conservador, que apoiava a rigidez da Contra-Reforma. Após a dramática expulsão dos mestres renascentistas de Coimbra, articulada por Simão Rodrigues, Grã havia se tornado o primeiro reitor do Colégio Jesuíta, estabelecido naquela cidade, sobre os escombros de uma progressista escola anterior, o Colégio das Artes, fechada por pressão dos jesuítas e por ordem do rei. Grã ocupou o cargo até ser enviado para o Brasil como "provincial colateral" - ou seja, o segundo de Nóbrega, então recém-nomeado provincial. Grã vivera no Brasil pelos 56 anos seguintes, até sua morte, em novembro de 1609, aos 86 anos. (p. 203)
Mas Sardinha não tinha ido a Pernambuco pregar contra o fumo. O principal objetivo da viagem era converter penas eclesiásticas em pecuniárias, literalmente cobrando pela absolvição dos pecados. Tão bem-sucedido teria sido o bispo na visita que, conforme denúncia de Duarte da Costa, só em Olinda arrecadou "mais de 800 cruzados, afora muitos outros serviços que lá tomou". Embora seja difícil acreditar que Sardinha tenha conseguido amealhar tamanha fortuna em tão pouco tempo - 800 cruzados equivaliam a 320 mil reais -, não restam dúvidas de que o procedimento do bispo era aquele, pois inúmeros relatos o confirmam. (p. 209)
Em meio às malícias daquele tempo, não é de se estranhar que, disposto a obter provas contra o governador e seus aliados, o bispo não hesitasse em utilizar os segredos do confessionários. (p. 214)
Na manhã seguinte, porém, o jesuíta Luís da Grã procurou o governador e, alarmado, alertou que ele e o filho estavam "incorrendo em excomunhão por meterem na prisão" uma autoridade eclesiástica, pois cabia exclusivamente ao bispo decidir o destino de seu subordinado. (p. 215)
Documentos pesquisados por Varnhagen e Teodoro Sampaio revelam que D. Duarte e D. Álvaro haviam desregulado o sistema de escambo tão bem articulado por Tomé de Sousa - por meio do qual os indígenas forneciam alimentos e mão-de-obra aos portugueses em troca de objetos de "resgate" - e "privatizaram" aquele comércio, "concedendo a seus apaniguados licenças para que tratassem diretamente com o gentio, e até ocupando nisso os bergantins (pequenas embarcações) do Estado, que deviam estar correndo a costa e combatendo os franceses". (p. 221)
Apesar de treinado em lutas na África, já tendo participado do sítio a fortaleza e baluartes mouros bem mais sólidos, o filho do governador precisou "pelejar muito" antes de vencer aquela barreira, penetrar na aldeia e "com ajuda de Nosso Senhor, matar muitos gentios, cativar o principal dela e lha queimar toda, bem como outras duas aldeias que estavam perto". (p. 227)
A desproporção de forças entre as armas de fogo e de metal dos europeus e os tacapes e flechas dos Tupinambá era tão gritante que, embora vários portugueses tenham sido feridos, nem um único morreu, ao passo que, entre os nativos, as baixas ultrapassaram setecentos homens. (p. 228)
Nada pode ser retirado do navio: os pequenos canhões móveis do convés, os paióis, os mantimentos, as bagagens, os arcabuzes, o ouro do bispo - tudo foi engolido pela voragem dos redemoinhos. (p. 233)
De acordo com relatos que soam fictícios - dentre os quais se inclui o referido poema de Anchieta, bem como um texto do jesuíta Simão de Vasconcelos -, D. Pero portou-se com altivez e resignação no momento em que, ajoelhado, amarrado e despido, aguardava o golpe que lhe partiu o crânio. Sua morte teria adquirido, assim, contornos de martírio e, apesar das contundentes críticas ao seu comportamento no Brasil, logo houve quem propusesse sua beatificação. (p. 236)
Escrevendo três décadas após a tragédia, Gabriel Soares de Sousa registrou o episódio com pequenas modificações, em especial no que se refere ao número de sobreviventes. Em seu preciosos Tratado Descritivo do Brasil, redigido em meados da década de 1587, Soares relata: "Depois que estes Caeté roubaram o bispo e toda a gente que salvaram do naufrágio, os despiram, e amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e comendo sem escapar mais que dois índios da Bahia e um português que lhes sabia a língua, filho do meirinho da correção". Quarenta anos mais tarde, frei Vicente do Salvador repetiria a história quase sem mudar palavra - indicativo de que se baseou em Soares. (p. 237)
Embora Gabriel Soares assegure que os indígenas "pouco a pouco foram matando e comendo" os sobreviventes do naufrágio, o fato é que os Tupi em geral devoravam apenas inimigos que julgavam dignos de receber aquela que, na sua visão, era a mais honrosa das mortes. Por isso, não comiam mulheres nem crianças. Além do mais, a data da execução era escolhida minuciosamente, a intervalos regulares, e os cativos eram abatidos em função de sua bravura em combate. No imaginário dos portugueses, porém, qualquer homem branco que caísse vítima dos nativos seria invariavelmente devorado. Isso porque, desde os primórdios da ocupação do Brasil, dentre todos os "costumes bárbaros" que professavam os indígenas, nenhum havia se revelado mais espantoso ao olhar europeu do que a antropofagia. (p. 237)
O monte do Bispo continua onde sempre esteve e, por se localizar a uns 2 quilômetros da orla, ainda não foi vitimado pela especulação imobiliária. Nesse caso, porém, não se trata de preservação ambiental, mas de abandono. Em meio a mangueiras frondosas e árvores nativas, a coroa do morro de fato revela uma clareira desnuda, embora haja indícios óbvios de que a área seja roçada de tempos em tempos. (p. 241)
Mas as esperanças de Mem de Sá eram palpáveis e não estavam tão distantes assim. Da mesma forma, pode-se afirmar que, infundado ou não, seu suposto "receio à pobreza" o impulsionaria a se tornar o homem mais rico do Brasil no século XVI - e o mais acusado de corrupção. (p. 250)
Foi então, em plena "sala da rainha", no Paço Real de Lisboa, durante a cerimônia, que um calvinista inglês, um certo William Gardiner, de Bristol, levantou-se e, na presença da família real e diante de toda a corte, "arrancou a hóstia consagrada das mãos do sacerdote, arremessando-a ao chão, quebrando-a em muitas partes, e ainda derramando o vinho não consagrado". Embora Gardiner tenha sido preso e executado com requintes de crueldade, o episódio abalou profundamente D. João III, que o teria visto como "um sinal dos céus" a anunciar desgraças futuras. (p. 252)
Dona Catarina manteve o governo de Portugal em padrões muito similares aos de seu marido. Na política externa, não se desviou no essencial das linhas ditadas por seu irmão, Carlos V, e seu sobrinho, Felipe II - como D, João III vinha fazendo em seus últimos dias de governo. Internamente, D. Catarina continuou fiel aos ideais da Contra-Reforma, aumentando os poderes da Inquisição e da Companhia de Jesus. (p. 256)
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