segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A pré-história da mente - Uma busca das origens da arte, da religião e da ciência - Steven Mithen (2002)

As últimas duas décadas presenciaram um notável avanço no campo do comportamento e das relações evolutivas dos nossos antepassados. De fato, atualmente, muitos arqueólogos estão certos de que chegou o momento de ir além das questões sobre a aparência e o comportamento desses ancestrais e começar a fazer perguntas sobre o que se passava nas suas mentes. É o tempo da "arqueologia cognitiva". A necessidade de tal avanço é particularmente evidente ao considerarmos o padrão de expansão do cérebro ao longo da evolução humana e sua relação - ou ausência de uma - com mudanças do comportamento anterior. Fica claro que não existe uma relação simples entre volume do cérebro, "inteligência" e comportamento. (p. 20)

Um dos argumentos da nova psicologia evolutiva é que a noção da mente como mecanismo de aprendizado geral, como se fosse um tipo de computador poderoso, é incorreta. Ela constitui o pensamento dominante dentro das ciências sociais, assim como também a visão (de "bom sonso"). Segundo os psicólogos evolutivos, essa noção deveria ser substituída por outra que define a mente como uma série de "domínios cognitivos", ou "inteligências", ou "módulos" especializados, cada qual dedicado a algum tipo específico de comportamento - como os módulos para a aquisição da linguagem, ou das habilidades de utilizar ferramentas, ou de interagir socialmente. (p. 23)

Assim como a de outras crianças, a mente de Nicholas parecia uma esponja absorvendo conhecimento. Novos fatos e ideias penetrando em um arranjo infinito de poros vazios. E digo mais, jovens mentes em diferentes partes do mundo absorverão coisas diferentes. Elas estarão adquirindo culturas distintas. E as culturas, segundo nos contam os antropólogos, não são apenas listas de fatos sobre o mundo, e sim maneiras específicas de pensar e compreender: a mente-esponja é aquela que absorve os próprios processos de pensamento. (p. 57)

Uma análise do trabalho de Tom Wynn mostrou que ele não havia cometido nenhum erro ao usar as ideias de Piaget. Fabricar um machado de mão que fosse simétrico em três dimensões com certeza parecia envolver os tipos de processos mentais que Piaget alegava serem característicos da inteligência operatório-formal. Talvez as ideias de Piaget é que estivessem erradas. Esse tem sido, de fato, o recado de muitos psicólogos ao longo da última década: a mente não opera programas de utilidade geral, tampouco é uma esponja que absorve indiscriminadamente qualquer informação disponível. Os psicólogos introduziram um novo tipo de analogia: a mente é como um canivete suíço. Um canivete suíço? Sim, um desses canivetes bojudos com um monte de equipamentos úteis, como tesouras, serrinhas e pinças. Cada elemento do canivete foi projetado para solucionar um tipo de problema bem específico. (p. 61)

Resumindo, Fodor acredita que a mente possui uma arquitetura de dois níveis; o inferior é como um canivete suíço e o superior, como... Bem, não podemos descrevê-lo porque não existe nada igual a ele no mundo. (p. 63)

Gardner sugere, portanto, que a arquitetura da mente é constituída por uma série de inteligências relativamente autônomas. (p. 65)

Na medida em que esse modo de vida terminou há apenas uma fração de tempo em termos evolutivos, nossas mentes permaneceram adaptadas à caça e à coleta. Como consequência disso, C & T argumentam que a mente é um canivete suíço com um grande número de lâminas altamente especializadas; em outras palavras, é composta de módulos mentais múltiplos. Cada uma dessas lâminas/módulos foi projetada pela seleção natural para lidar com um determinado problema adaptativo enfrentado pelos caçadores-coletores durante nosso passado. (p. 68)

Uma das melhores narrativas da intrincada rede social dos chimpanzés é de autoria de Franz de Waal (1982), que descreveu maravilhosamente suas observações sobre a política desses animais enquanto estudava uma colônia do Zoológico de Burger, em Arhem. Ele nos presenteia com uma história de ambição, manipulação social, privilégios sexuais e tomadas de poder que deixariam sem graça qualquer aspirante a político - e foi tudo realizado por chimpanzés (maquiavélicos). Por exemplo, De Waal descreve a guerra pelo poder entre dois machos mais velhos, Yeroen e Luit, que durou dois meses. Começa com Yeronen como o macho dominante e continua por uma série de encontros agressivos, blefes e gestos de reconciliação de Yeroen. Para conseguir isso, Luit diligentemente conquistou o apoio das fêmeas do grupo, que no início aprovavam Yeroen. Luit ignorava as fêmeas na presença de Yeroen, mas lhes dava muita atenção e brincava com seus filhotes quando esse macho não estava por perto. E antes do grooming de cada fêmea, como que tentando obter seu apoio. O sucesso final de Luit resultou da aliança com outro macho, Nikkie. Durante os conflitos com Yeroen, Luit dependia de Nikkie para espantar as fêmeas partidárias do seu adversário. Nikkie, por sua vez, tinha muito a ganhar com isso. Ele começou ocupando uma posição social muito baixa no grupo, sendo ignorado pela fêmeas, mas quando Luit chegou a líder, passou ao segundo cargo de comando na hierarquia, acima das fêmeas e de Yeroen. Tão logo se tornou vitorioso, as atitudes sociais de Luit mudaram: em vez de ser a fonte de conflitos, transformou-se em campeão da paz e da estabilidade. Sempre que as fêmeas brigavam ele punha um fim nas contendas, sem tomar partido, e batia em qualquer uma que continuasse discordando. Em outras ocasiões, Luit impedia um conflito escalonado dentro do grupo ao apoiar o participante mais fraco. Punha Nikkie para correr, por exemplo, quando ele atacava Amber, uma das fêmeas. Depois de alguns meses como o macho dominante, Luit perdeu sua posição para Nikkie. E isso somente foi possível quando Nikkie formou uma poderosa aliança com ninguém menos que Yeroen. (p. 130)

Os humanos arcaicos, no entanto, não habitavam várias regiões do Velho Mundo nem chegaram até a Austrália ou as Américas. Clive Gamble (1993), uma das maiores autoridades em comportamento dos humanos arcaicos, reavaliou há pouco tempo a evidência da colonização global e concluiu que eles eram incapazes de lidar com ambientes muito secos e muito frios. Esses parecem ter sido desafios excessivos, mesmo possuindo-se uma inteligência naturalista bem desenvolvida e a capacidade de produzir instrumentos como machados de mão. Ainda nãos e sabe ao certo de que maneiras os humanos arcaicos exploraram esses ambientes diversos. (p. 198)

Uma inteligência naturalista bem desenvolvida parece ter sido essencial aos estilos de vida dos humanos arcaicos, pelo que se infere dos registros arqueológicos. (p. 204)

Podemos afirmar com segurança que, apesar de diferenças linguísticas, todos os humanos arcaicos partilhavam a mesma mente básica: uma mentalidade do tipo canivete suíço. Possuíam inteligências múltiplas, cada qual dedicada a um domínio comportamental específico, e havia pouca interação entre elas. Podemos realmente imaginar a mente humana arcaica como uma catedral abrigando várias capelas isoladas, dentro das quais se realizavam serviços de pensamento únicos, que mal podiam ser ouvidos em outro lugar do edifício. (p. 225)

Também podemos imaginar os pensamentos e o conhecimento das capelas técnicas e naturalista filtrando-se através das paredes das capelas social e linguística e invadindo seus espaços de forma surda, abafada. Tendo chegado lá, passaram a ser utilizados pela inteligência linguística durante as emissões de elocuções. (p. 307)

Uma grande parte da atividade mental provavelmente mantém-se fora do nosso alcance, dentro de nossa mente inconsciente. Artesões, por exemplo, com frequência parecem não estar conscientes do conhecimento técnico e perícia que utilizam. Se alguém lhes pergunta como se faz um vaso de argila no torno, muitas vezes eles têm dificuldades em dar explicações, a não ser por meio de uma demonstração prática. As ações com certeza falam mais alto que as palavras quando o conhecimento técnico está "aprisionado" dentro de um domínio cognitivo especializado. Isso enfatiza a importância do ensino verbal de uma técnica, que somente começou no início do Paleolítico, na França, ou Trollesgave, na Dinamarca (cf. Pigeot, 1990; Fischer, 1990). (p. 312)

Os indivíduos capazes de explorar pedacinhos de conversação não social encontravam-se numa posição de vantagem seletiva, na medida em que podiam integrar o conhecimento antes "aprisionado" dentro das inteligências especializadas. (p. 314)

O antropólogo social Chris Knight e seus colaboradores argumentaram que as fêmeas dos primeiros humanos modernos resolveram o problema das crescentes demandas energéticas dos cérebros de seus bebês explorando "níveis até então desconhecidos do investimento eenergético dos machos" (Knight et al., 1995). Esses pesquisadores sugerem que o comportamento das fêmeas forçou os machos a fornecer-lhes alimentos de alta qualidade, obtidos pela caça. Um importante subterfúgio feminino nesse contexto teria sido a "greve de sexo" e o uso do ocre vermelho para "simular menstruação". (p. 315)

Assim como a ascendência arborícola dos australopitecinos possibilitou a evolução do bipedalismo, a própria bipedia tornou possível a evolução de uma capacidade aumentada de vocalização entre os primeiros Homo, particularmente em H. erectus. Leslie Aiello (1996a, b) deixa isso muito claro. Ela explicou como a postura em pé da bipedia causou um rebaixamento da laringe, cuja posição na garganta torna-se mais baixa que a encontrada nos grandes símios. Maior capacidade de produzir sons de vogais e consoantes foi um subproduto e não causa da nova posição da laringe. Além disso, mudanças na respiração, associadas à bipedia, deve ter melhorado a qualidade dos sons. O aumento no consumo de carne também gerou um importante subproduto linguístico, porque o tamanho dos dentes pôde diminuir graças à maior facilidade de mastigar carne e gordura em vez de grandes quantidades de material vegetal seco. Essa redução alterou a geometria das mandíbulas, possibilitando o desenvolvimento de músculos para o controle de movimentos finos da língua dentro da boca, necessários para a agama diversificada de sons de alta qualidade exigidos pela linguagem. (p. 337)


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