domingo, 16 de outubro de 2016

Alucinações musicais - Relatos sobre a música e o cérebro - Oliver Sacks (2007)

Há alguns indícios de que os aspectos tanto visuoespaciais como vestibulares das experiências extracorpóreas estão relacionados à perturbação da função do córtex cerebral, especialmente na região de ligamento entre os lobos temporais e parietais. (p. 26)

Desde meados dos anos 1990, estudos realizados por Robert Zatorre e seus colegas usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstraram que, de fato, imaginar música pode ativar o córtex auditivo quase com a mesma intensidade da ativação causada por ouvir música. Imaginar música também estimula o córtex motor, e, inversamente, imaginar a ação de tocar música estimula o córtex auditivo. (p. 44)


Em seu livro The haunting melody: psychoanalytic experiences in life and music, Theodor Reik escreveu sobre os fragmentos musicais ou melodias que ocorrem no decorrer de uma sessão de análise: "Melodias que nos passam pela cabeça [...] podem dar ao analista uma pista para a vida secreta de emoções que cada um de nós vivencia. [...] Nesse cantar interior, a voz de um self desconhecido comunica não só humores e ímpetos passageiros, mas às vezes também um desejo repudiado ou negado, um anseio e um impulso que não gostamos de admitir para nós mesmos. [...] Seja qual for a mensagem secreta que transmita, a música incidental que acompanha nosso pensamento consciente nunca é acidental". (p. 50)


Com o advento das técnicas de imageamento cerebral na década de 1990, tornou-se possível visualizar o cérebro de músicos e compará-lo ao de não músicos. Usando a morfometria por ressonância magnética, Gottfried Schlaug e seus colegas de Harvard fizeram minuciosas comparações do tamanho de várias estruturas cerebrais. Em 1995. publicaram um artigo demonstrando que o corpo caloso, a grande comissura que liga os dois hemisférios cerebrais, é maior em músicos profissionais, e que uma parte do córtex auditivo, o plano temporal, apresenta um aumento assimétrico nos músicos dotados de ouvido absoluto. Schlaug et al. apontaram também volumes maiores de massa cinzenta nas áreas motoras, auditivas e visuoespaciais do córtex, bem como no cerebelo. Hoje os anatomistas teriam dificuldade para identificar o cérebro de um artista plástico, um escritor ou um matemático, mas poderiam reconhecer sem hesitação o de um músico profissional. (p. 105)


Belin, Zatorre e seus colegas encontraram no córtex auditivo áreas "seletivas para vozes" que são anatomicamente separadas das áreas envolvidas na percepção do timbre musical. (p. 120)


Há um século e meio sabemos que existe uma especialização relativa (mas não absoluta) das funções dos dois lados do cérebro. O desenvolvimento das habilidades abstratas e verbais associa-se especialmente ao hemisfério esquerdo ou dominante, e as habilidades perceptuais ao direito. Essa assimetria hemisférica é muito pronunciada nos humanos (e está presente em menor grau nos primatas e em alguns outros mamíferos), sendo observável inclusive no útero. No feto, e talvez na criança muito pequena, a situação é invertida, pois o hemisfério direito desenvolve-se mais cedo e mais rapidamente do que o esquerdo, permitindo assim que funções perceptuais estabeleçam-se nos primeiros dias e semanas de vida. O hemisfério esquerdo demora mais para desenvolver-se, mas continua a mudar de modo fundamental após o nascimento. (p. 167)

Somos uma espécie linguística. Recorremos à linguagem para expressar o que quer que estejamos pensando, e em geral ela está à nossa disposição para ser usada instantaneamente. Mas para os portadores de afasia, a incapacidade de comunicar-se verbalmente pode ser quase insuportável por causa da frustração e do isolamento decorrentes. Para piorar, essas pessoas muitas vezes são tratadas como idiotas, quase como não pessoas, porque não conseguem falar. (p. 228)

Com efeito, existem indícios de que as partes mediais do cérebro que nos permitem sentir emoções profundas - especialmente a amígdala - podem ser pouco desenvolvidas nos portadores da síndrome de Asperger. (p. 304)

Não ser exposto à música na infância poderia causar algum tipo de amusia, do mesmo jeito que não ser exposto à linguagem no período crítico pode prejudicar a competência linguística pelo resto da vida? (p. 305)

Ele comprou um saxofone e em um ano estava tocando profissionalmente em clubes da cidade; depois desistiu e partiu para sua adorada Europa para ganhar alguns trocados tocando enquanto aplicava golpes em pessoas ingênuas e confiantes. Em algum lugar, em alguma esquina escura de Praga, Zurique, Atenas ou Amsterdam, multidões passam por um solitário saxofonista tocando apaixonadamente, sem jamais desconfiarem que ele é o homem que chamo de "o maior compositor vivo da América" e também um perigoso psicopata. (p. 321)

Em contraste com a doença de Alzheimer, que geralmente se manifesta com perda de memória ou cognitiva, a demência frontotemporal com frequência se inicia com alterações de comportamento:desinibições de um tipo ou de outro. Talvez seja por isso que às vezes os familiares e os médicos demoram a detectar o problema. Para confundir, não existe um quadro clínico constante, mas uma variedade de sintomas, dependendo do lado do cérebro mais afetado e de se o dano se localiza principalmente nos lobos frontais ou temporais. Os aparecimentos de talentos artísticos e musicais que Miller e outros observaram ocorrem apenas em pacientes com lesão sobretudo no lobo temporal esquerdo. (p. 326)

O fato de que toda a panóplia de talentos musicais podia ser tão extraordinariamente desenvolvida em pessoas com deficiências (algumas graves) na inteligência geral mostrou, tanto quanto as capacidades musicais isoladas dos savants musicais, que de fato se podia falar em uma "inteligência musical" específica, como postulara Howard Gardner em sua teoria das inteligências múltiplas. (p. 346)

As três inclinações tão pronunciadas nas pessoas com síndrome de Williams - a musical, a narrativa e a social - parecem andar juntas, ser elementos distintos mas intimamente associados do arrebatador impulso expressivo e comunicativo que é absolutamente fundamental nessa síndrome. (p. 347)


Todos esses estudos, na opinião de Bellugi, indicam que "o cérebro dos indivíduos com síndrome de Williams é organizado de modo diferente do das pessoas normais, tanto no nível macro como no micro". As características mentais e emocionais muito distintas das pessoas com síndrome de Williams refletem-se com grande precisão e beleza nas singularidades de seu cérebro. Embora esse estudo das bases neurais da síndrome de Williams esteja longe de ser completo, ele possibilitou fazer a mais extensa correlação já vista entre numerosas características mentais e comportamentais e sua base cerebral. (p. 348)

Em 1994 visitei Heidi Comfort, uma menina som síndrome de Williams, em sua casa no sul da Califórnia. Com oito anos, muito segura de si, ela imediatamente detectou minha timidez e disse para me encorajar: "Não se acanhe, senhor Sacks". (p. 349)

Sua mãe, Caroç Zitzer-Comfort, disse-me que certa vez aconselhara a menina a não falar com estranhos, ao que Heidi replicou: "Não existem estranhos, só amigos". (p. 350)

Os círculos de percussão constituem outra forma de musicoterapia que pode ser inestimável para pessoas com demência, pois, como a dança, a percussão comunica-se com níveis muito fundamentais, subcorticais, do cérebro. A música nesse nível, um nível inferior ao pessoal e ao mental, um nível puramente físico ou corporal, dispensa a melodia e o conteúdo específico, ou afeto, da canção - mas requer, indispensavelmente, o ritmo. O ritmo pode restaurar nossa noção de habitar um corpo e um senso primordial de movimento e vida (p. 362)















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