E, se observei corretamente, em geral a "não liberdade de arbítrio" é vista como problema por dois lados inteiramente opostos, mas sempre de maneira profundamente pessoal: uns não querem por preço algum abandonar sua "responsabilidade", a fé em si, o direito pessoal ao seu mérito (as raças vaidosas estão deste lado -); os outros, pelo contrário, não desejam se responsabilizar por nada, e, a partir de um autodesprezo interior, querem depositar o fardo de si mesmos em algum outro lugar. Estes últimos, quando escrevem livros, costumam agora tomar a defesa dos criminosos; uma espécie de compaixão socialista é o disfarce que mais lhe agrada. (p. 26)
Pois o homem indignado, ou quem está sempre dilacerando e rasgando a si mesmo (ou, em seu lugar, o mundo, Deus, a sociedade) com os próprios dentes, pode ser moralmente superior ao sátiro sorridente e satisfeito, mas em qualquer outro sentido ele é o caso mais comum, mais irrelevante, menos instrutivo. E ninguém mente tanto como o indignado. (p. 32)
Independência é algo para bem poucos: - é prerrogativa dos fortes. E quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, ainda que com todo o direito, demonstra que provavelmente é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele penetra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo; dos quais um dos maiores é que ninguém pode ver como e onde se extravia, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência. Supondo que alguém assim desapareça, isto ocorre tão longe do entendimento dos homens que eles não sentem nem compadecem: - e ele não pode voltar! já não pode retornar seque para a compaixão dos homens! (p. 34)
Onde quer que a neurose religiosa tenha aparecido na Terra, nós a encontramos ligada a três prescrições dietéticas perigosas: solidão, jejum e abstinência sexual - mas sem podermos decidir, com segurança, o que aí é causa e o que é efeito, e mesmo se existe uma relação de causa e efeito. (p. 49)
É com seu próprio deus que as pessoas são mais desonestas: não lhe é permitido pecar. (p. 62)
"Eu fiz isso", diz minha memória. "Eu não posso ter feito isso", diz meu orgulho, e permanece inflexível. Por fim - a memória cede. (p. 62)
Quem alcança seu ideal, vai além dele. (p. 63)
Em circunstâncias de paz, o homem guerreiro se lança contra si mesmo. (p. 63)
Quem se despreza, ainda preza a si mesmo como desprezador. (p. 63)
A mulher aprende a odiar na medida em que desaprende a - enfeitiçar. (p. 64)
Na afabilidade não há traço de ódio aos homens, mas precisamente por isso demasiado desprezo aos homens. (p. 65)
Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar. (p. 65)
Envergonhar-se da própria imoralidade: é um degrau da escada ao fim da qual nos envergonhamos da nossa moralidade. (p. 65)
Descobrir que é correspondido deveria na verdade desenganar o amante em relação ao ser amado. "Como? É modesta a ponto de te amar? Ou estúpida? Ou - ou -." (p. 65)
Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos. (p. 66)
Quando o amor ou o ódio não participa do jogo, a mulher é jogadora medíocre. (p. 67)
Também o concubinato foi corrompido - pelo casamento. (p. 67)
Não odiamos enquanto nossa estima é pouca, mas quando estimamos alguém como igual ou superior. (p. 72)
As consequências do que fizemos nos alcança, indiferentes a que tenhamos "melhorado" nesse meio-tempo. (p. 73)
Na medida em que sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, povos, Estados, Igrejas), e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram - considerando, portanto, que a obediência foi até agora a coisa mais longamente exercitada e cultivada entre os homens, é justo supor que via de regra é agora inata em cada um a necessidade de obedecer, como uma espécie de consciência formal que diz: "você deve absolutamente fazer isso, e absolutamente se abster daquilo", em suma, "você deve". (p. 85)
Quando todos são iguais, ninguém precisa de direitos. (p. 90)
Nós, que somos de outra fé - nós que consideramos o movimento democrático não apenas uma forma de decadência das organizações políticas, mas uma forma de decadência ou diminuição do homem, sua mediocrização e rebaixamento de valor: para onde apontaremos nós as nossas esperanças? (p. 91)
A degeneração global do homem, descendo ao que os boçais socialistas veem hoje coo o seu "homem do futuro" - como o seu ideal! - , essa degeneração e diminuição do homem, até tornar-se o perfeito animal de rebanho (ou, como dizem eles, o homem da sociedade livre"), essa animalização do homem em bicho-anão de direitos e exigências iguais é possível, não há dúvida! Quem já refletiu nessa possibilidade até o fim, conhece um nojo a mais que os outros homens - e também, talvez, uma nova tarefa!... (p. 92)
Por mais gratos que sejamos ao espírito objetivo - e quem já não teria se cansado até à morte de tudo que é subjetivo e de sua maldita "mesmicidade"! - afinal deve-se ter cautela também com a própria gratidão, e refrear o exagero com que ultimamente a renúncia e despersonalização do espírito é celebrada, como quase um fim em si, como redenção e transfiguração: o que costuma suceder na escola dos pessimistas, a qual também tem boas razões, de sua parte, para prestar homenagem ao "conhecimento desinteressado". (p. 97)
Hoje o gosto e a virtude do tempo enfraquecem e diluem a vontade, nada é tão atual como a fraqueza da vontade: em consequência, no ideal do filósofo devem ser incluídas na noção de "grandeza" justamente a força da vontade, a dureza e a capacidade para decisões largas; com a mesma justificativa com que a doutrina inversa e o ideal de uma humanidade simplória, abnegada, humilde e desinteressada se adequavam a uma época inversa, uma tal que, como o século XVI, sofresse da sua energia de vontade acumulada e das selvagens marés e cheias do egoísmo. (p. 106)
Hoje, inversamente, quando na Europa somente o animal de rebanho recebe e dispensa honras, quando a "igualdade de direito" pode facilmente se transformar em igualdade na injustiça: quero dizer, em uma guerra comum a tudo que é raro, estranho, privilegiado, ao homem superior, ao dever superior, à responsabilidade superior, à plenitude de poder criador e dom de dominar - hoje o ser-nobre, o querer-ser-para-si, o poder-ser-distinto, o estar-só e o ter-que -viver-por-si são parte da noção de "grandeza". (p. 107)
Julgar e condenar moralmente é a forma favorita de os espiritualmente limitados se vingarem daqueles que o são menos, e também uma espécie de compensação por, terem sido descurados pela natureza; e, por fim, uma oportunidade de adquirirem espírito e se tornarem sutis - a malícia espiritualizada. (p. 112)
O que na mulher inspira respeito e com frequência temor é sua natureza, que é "mais natural" que a do homem, sua autêntica astuciosa agilidade ferina, sua garra de tigre por baixo da luva, sua inocência no egoísmo, sua ineducabilidade e selvageria interior, o caráter inapreensível, vasto, errante de seus desejos e virtudes... O que, com todo o temor, desperta compaixão por esse belo r perigoso felino "mulher", é o fato de ela parecer mais sofredora, mais frágil, mais necessitada de amor e condenada à desilusão que qualquer outro animal. (p. 131)
Pois enquanto essa tal força de adaptação, que está sempre a testar condições cambiantes e começa um novo trabalho a cada geração, cada decênio quase, não permite em absoluto a pujança do tipo; enquanto a impressão geral causada por esses futuros europeus será, provavelmente, a de trabalhadores bastante utilizáveis, múltiplos, faladores e fracos de vontade, necessitados do senhor, do mandante, como do pão de cada dia; enquanto a democratização da Europa resulta, portanto, na criação de um tipo preparado para a escravidão no sentido mais sutil: o homem forte, caso singular e de exceção. terá de ser mais forte e mais rico do que possivelmente jamais foi - graças à ausência de preconceitos em sua educação, graças à enorme diversidade de exercitação, dissimulação e arte. Quero dizer que a democratização da Europa é, simultaneamente, uma instituição involuntária para o cultivo de tiranos - tomando a palavra em todo sentido, também no mais espiritual. (p. 135)
Há dois tipos de gênio: o que antes de tudo fecunda e quer fecundar, e o que prefere ser fertilizado e dar à luz. Assim também existe, entre os povos de gênio, aqueles a quem coube o problema feminino da gravidez e a secreta missão de plasmar, amadurecer, consumar - os gregos, por exemplo, foram um povo desse tipo, e também os franceses - ; e aqueles que têm de fertilizar e ser causa de novas ordens da vida - como os judeus, os romanos e, perguntando com toda a modéstia, os alemães? -, povos enlevados e atormentados por febres desconhecidas, irresistivelmente arrastados para fora de si, apaixonados e ávidos de outras raças (as que "preferem ser fertilizadas"-), e com isso dominadores, como tudo que se sabe pleno de força fecundante e, portanto, de "graça divina". Esses dois tipo de gênio se procuram, tal como o homem e a mulher; mas também se entendem mal - como o homem e a mulher. (p. 142)
Apenas mediante esforço, com auxílio da história, o homem nobre pode considerar que desde tempos imemoriais, em todas as camadas de algum modo dependentes, o homem comum era somente aquilo pelo qual era tido - jamais habituado a estabelecer valores por si mesmo, tampouco se atribuía outro valor que não o atribuído por seus senhores (o autêntico direito senhorial é criar valores). Entenda-se como consequência de um enorme atavismo o fato de o homem ordinário ainda hoje esperar uma opinião sobre si, e depois submeter-se instintivamente a ela: mas não somente a uma opinião "boa", em absoluto, e sim também a uma ruim ou injusta (pense-se, por exemplo, na maior parte das autoapreciações e depreciações que as mulheres devotas aprendem dos confessores, e o cristão devoto em geral de sua Igreja).
O que é, afinal, a vulgaridade? - Palavras são sinais sonoros para conceitos; mas conceitos são sinais-imagens, mais ou menos determinados, para sensações recorrentes e associadas, para grupos de sensações. (p. 165)
Quanto mais um psicólogo - um nato e inevitável psicólogo e leitor de almas - voltar a atenção para os casos e seres mais seletos, maior será o perigo de ele sufocar de compaixão: ele necessita dureza e serenidade, mais que qualquer outro homem. (p. 167)
Os maiores acontecimentos e pensamentos - mas os maiores pensamentos são os maiores acontecimentos - são os últimos a serem compreendidos: as gerações que vivem no seu tempo não vivenciam tais acontecimentos - passam ao largo deles. O corre algo semelhante no reino das estrelas. A luz das estrelas mais distantes é a última a chegar aos homens; e enquanto ela não chega, os homens negam que ali - haja estrelas. "De quantos séculos precisa um espírito para ser compreendido?" - eis aí também uma medida, com que se estabelece uma hierarquia e etiqueta de que há necessidade: para o espírito e para a estrela. (p. 174)
Toda filosofia também esconde uma filosofia, toda opinião é também um esconderijo, toda palavra também uma máscara. (p. 175)
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
A sociedade dos filhos órfãos - Sérgio Sinay (2012)
Quem se propuser a observar com honestidade e sem preconceito o cenário em que os habitantes desta sociedade e deste tempo vivem verá crianças e adolescentes à deriva, abandonados a um destino incerto, ou destinados a serem vítimas de todo tipo de comerciantes; de manipuladores ideológicos; de operadores midiáticos; de impunes experimentalistas pedagógicos, psicológicos, psiquiátricos e farmacológicos; de sinistros traficantes e dos mais variados tipos de domesticadores. (p. 9)
Ser pai, ser mãe não é um hobby ou uma atividade para as horas livres. Trata-se de um empreendimento de tempo integral (e mesmo quando não é estritamente no físico, é no emocional). (p. 43)
Ser pai, ser mãe não é um hobby ou uma atividade para as horas livres. Trata-se de um empreendimento de tempo integral (e mesmo quando não é estritamente no físico, é no emocional). (p. 43)
terça-feira, 15 de novembro de 2016
A vida na sarjeta - Theodore Dalrymple (2014)
O padrão desastroso das relações humanas que existe na subclasse também tem se tornado comum na escala social mais alta. Com frequência cada vez maior consulto enfermeiras, tradicionalmente e por muito tempo originárias ou pertencentes à respeitável classe média baixa (ao menos, após Florence Nightngale), que têm filhos ilegítimos de homens que, inicialmente, praticaram algum tipo de abuso, e depois as abandonaram. Essa violência e posterior abandono são, em geral, muito previsíveis dados o histórico e a personalidade desses homens, mas as enfermeiras que foram tratadas dessa maneira dizem que se abstiveram de julgar o companheiro porque é errado fazer juízo de valor. Se, contudo, não forem capazes de emitir um juízo sobre o homem com quem viverão e com quem terão filhos, sobre o que emitirão juízos? (p. 23)
Hoje a concepção prevalecente de vício, em geral, é a de uma doença caracterizada por um ímpeto irresistível (mediado neuroquimicamente e hereditário por natureza) para consumir uma droga ou uma substância, ou para se comportar de maneira autodestrutiva ou antissocial. Um viciado não tem culpa e, por seu comportamento ser a manifestação de uma doença, possui tanto conteúdo moral quanto as condições meteorológicas.
O efeito que um ladrão de carros relatou-me foi: o furto compulsivo de automóveis não era somente culpa sua, mas a responsabilidade por impedi-lo de apresentar aquele comportamento, neste caso, era minha, já que eu era o médico que o tratava. E até que a profissão médica encontrasse o equivalente comportamental de um antibiótico no tratamento da pneumonia, ele continuaria a causar um enorme sofrimento e inconveniente para os proprietários de carros e, ainda assim, considerar-se-ia, fundamentalmente, uma pessoa decente. (p. 31)
Os prisioneiros, invariavelmente, descrevem aos médicos e aos psicólogos as dificuldades de infância (que apresentam, na ocasião, como se fossem relíquias de família), os pais violentos ou ausentes, a pobreza e todas as dificuldades e desvantagens que são herança da raça urbana.
A perspectiva desonesta e interesseira fica aparente na postura com que tratam aqueles que acreditam ter-lhe feito mal. Por exemplo, sobre os policiais que supõem (volta e meia, de maneira razoável) que os tenham espancado não dizem: "Pobres policiais! Foram criados em lares autoritários e agora projetam sua raiva em mim, mas, na verdade, ela é dirigida aos pais que os maltrataram". Ao contrário, dizem com força e emoções explosivas: "os imbecis!". Pressupõem que a polícia age por livre-arbítrio para não dizer, por uma vontade malévola. (p. 33)
Os proprietários de estúdios de tatuagem são bastante tatuados, embora alguns deles, em nossas conversas privadas, tenham admitido que não se tatuariam, ao menos não numa extensão tão grande, caso pudessem voltar no tempo. (p. 77)
As tolices dos tolos são as oportunidades dos sábios, é claro. Aprendi pelas Páginas Amarelas que, para cada cinco estúdios de tatuagem, há três clínicas de remoção de tatuagem a laser (foi assim que nosso produto interno bruto cresceu). (p. 79)
Muitas vezes tentei fazer um experimento simples: numa enfermaria repleta de pacientes incapacitados, desliguei a televisão ou as televisões e deixei o recinto por cinco minutos. Infalivelmente, a televisão ou televisões estavam ligadas no momento em que eu retornava, mas quem as ligava de novo, nunca fui capaz de descobrir. Os pacientes não poderiam tê-lo feito, e as enfermeiras negam. É um mistério total, como o Sudário de Turim. As enfermeiras, no entanto, sempre dizem: "os pacientes querem a TV ligada" e continuarão a dizê-lo, muito embora uma votação informal normalmente revele o contrário.
Parece-me improvável prima facie que uma senhora de oitenta anos com hemiplegia do lado direito após um derrame, e com dificuldade de deglutição da própria saliva realmente queira assistir ao Mr. Motivador, um personal trainer fanático, numa roupa colante de lycra de cores fluorescentes, demonstrando, ao som de uma batida de discoteca incessante, os exercícios para o telespectador perder a celulite nas coxas. Há alguém na enfermaria, no entanto (um pós-modernista, talvez), que acredita que um momento sem entretenimento é um momento perdido, e que uma mente não preenchida pela bobagem de outro alguém é um vácuo do tipo que a natureza abomina. (p. 83)
Claramente, algo muito estranho está acontecendo em nossas escolas. Nossas práticas educacionais atuais são tão grotescas que seria uma afronta à pena de Jonathan Swift satirizá-la. Na grande área metropolitana em que trabalho, por exemplo, os professores receberam instruções de que não devem ministrar as tradicionais disciplinas de ortografia e gramática. Dizem que a atenção mesquinha aos detalhes da sintaxe e da ortografia inibe a criatividade da criança e a capacidade de autoexpressão. Além disso, afirmar que existe uma maneira correta de falar e de escrever é favorecer uma espécie de imperialismo cultural burguês; e dizer para a criança que ela fez algo errado é necessariamente conferir-lhe um senso de inferioridade debilitador do qual nunca se recuperará. (p. 94)
Infelizmente, é muito difícil derrubar esses incrementos pedagógicos (ou antipedagógicos) mesmo hoje, quando o governo central percebeu tardiamente as consequências desastrosas. Por quê? Primeiro, os professores e os professores dos professores nas faculdades de Pedagogia estão profundamente imbuídos dessas ideias educacionais que nos fizeram chegar a esse ponto. Segundo, uma enorme burocracia educacional cresceu na Inglaterra (um burocrata por professor, pululando como almirantes nas marinhas sul-americanas), que usa de todos os subterfúgios para evitar a mudança: da falsificação de estatísticas a interpretações errôneas intencionais da política do governo. (p. 97)
A nova ortodoxia para todas as classes é a seguinte: já que nada é melhor e nada é pior, o pior é melhor porque é mais popular. (p. 106)
Se os britânicos aceitassem, contentes, as desigualdades de renda como parte da natureza das coisas, realmente como precondição e consequência de uma sociedade livre, o efeito pernicioso da loteria nacional na moralidade da nação não seria tão grande. Seria apenas um pouco de diversão; mas a maioria dos britânicos equaciona desproporção de rendas com desigualdade e injustiça, e explica o impulso por tal enriquecimento súbito como uma espécie d vingança do pobre contra um sistema que permite a alguns acumularem uma enorme e injusta porção dos bens terrenos pelo talento e trabalho árduo. Ainda assim, há mais júbilo na Grã-Bretanha pela falência de um milionário que ficou rico pelos próprios méritos do que pelo enriquecimento de 99 pobres. (p. 124)
É a mente, e não a sociedade, que forja as algemas que mantêm as pessoas presas aos seus infortúnios. (p. 135)
O surgimento de uma subclasse indiana na Grã-Bretanha é uma questão de importância maior do que os números parecem sugerir. Não é uma resposta quase mecânica às condições econômicas, ao preconceito racial ou a qualquer outra forma de opressão amada pelos engenheiros sociais de esquerda. É a refutação de uma máxima marxista infinitamente perniciosa que tem corrompido a vida intelectual ao afirmar que "não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a consciência". Homens - até mesmo os adolescentes - pensam: e o conteúdo daquilo que pensam determina, em grande parte, o curso de suas vidas. (p. 144)
O pobre, escreveu um bispo alemão do século XVI, é uma mina de ouro; e assim, por sua vez, os moradores de rua. (p. 146)
A falta de um lar não é, ao menos na sociedade de hoje, a instância especial de uma lei, enunciada pela primeira vez por um colega médico britânico, de que a miséria aumenta para satisfazer os meios disponíveis para reduzi-la? E o comportamento antissocial não aumenta na proporção das desculpas criadas pelos intelectuais? (p. 153)
Quando externei minhas opiniões sobre os conjuntos habitacionais britânicos para um arquiteto inglês - a quem, em meu coração, imputava uma parte da culpa coletiva por aquela situação calamitosa - ele imediatamente replicou: "Sim, mas os chiqueiros fazem os porcos ou os porcos fazem os chiqueiros?" (p. 172)
É bem sabido que crianças inteligentes que não são suficientemente instigadas na escola e são obrigadas a repetir as lições que já entenderam só porque outros em sua classe, mais lentos do que elas, não as dominam, muitas vezes ficam inquietas, comportam-se mal e tornam-se até delinquentes; o que é menos percebido é que esse padrão destrutivo persiste igualmente na vida adulta. Os entediados - dentre os quais estão aqueles cujo grau de inteligência é muito incompatível com as exigências do ambiente cultural - frequentemente resolvem o problema ao fomentar crises facilmente evitáveis e totalmente previsíveis na vida pessoal. A mente, assim como a natureza, abomina o vácuo, e se nenhum interesse cativante foi desenvolvido na infância e na adolescência, tal interesse é imediatamente criado com os materiais que tem à disposição. O homem tanto é um animal criador de problemas como é um solucionador de problemas. Uma crise é melhor que o tédio permanente da insignificância. (p. 178)
Com um imenso aparato de Bem-Estar Social, que consome cerca de um quinto da renda nacional, não sobra nada para uma jovem de dezoito anos, como a que se consultou comigo semana passada, que se esforça mui valorosamente para escapar de sua triste experiência pregressa. O pai era um alcoólatra que bateu na mãe da jovem todos os dias da vida de casados, e muitas vezes também batia nos filhos, até que finalmente decidiu que já era o bastante e deixou-os. Infelizmente, o irmão mais novo de minha paciente assumiu a posição e tornou-se tão violento quanto o pai. Batia na mãe e, certo dia quebrou um vidro e usou a ponta quebrada para infligir um ferimento extremamente grave no braço esquerdo de minha paciente, do qual ela, dois anos depois, ainda não se recuperou totalmente, e provavelmente nunca o fará.
Aparentemente dotada por natureza de uma personalidade forte, minha paciente insistiu não só em chamar a polícia, mas em apresentar queixa contra o irmão, que tinha quatorze anos na ocasião. Os magistrados concederam-lhe a suspensão condicional da pena. A mãe de minha paciente, estarrecida com a falta de solidariedade familiar, expulsou-a de casa aos dezesseis anos, para cuidar de si mesma. Isso pôs um fim aos seus planos - formulados sob as mais inauspiciosas circunstâncias - de continuar os estudos e tornar-se advogada. (p. 180)
Minha paciente, é claro, é alvo fácil para arrombadores e ladrões. Sua casa já foi arrombada cinco vezes no último ano, e foi assaltada na rua três vezes no mesmo período, duas vezes na presença de transeuntes.
Esse tipo de pessoa não conta com a simpatia das autoridades. A polícia já lhe disse, mais de uma vez, que a culpa era ela: alguém assim não deveria viver em um local como aquele. As ruas, em outras palavras, devem estar livres para hooligans, vândalos e assaltantes exercerem seus ofícios inevitáveis em paz, sendo dever dos cidadãos evitá-los. Não faz parte do dever do Estado defender as ruas de tais pessoas. (p. 184)
A vida nos bairros pobres da Grã-Bretanha demonstra o que acontece quando a maior parte da população, bem como as autoridades, perde a fé na hierarquia de valores. O resultado é todo tipo de patologia: onde o conhecimento não é preferível à ignorância, e a alta cultura à baixa, os inteligentes e os que têm sensibilidade sofrem a perda total do significado das coisas. O inteligente se autodestrói e o que tem sensibilidade perde as esperanças e onde a decorosa sensibilidade não é alimentada, encorajada, apoiada ou protegida, abunda a brutalidade. (p. 186)
O politicamente correto penetrou tão rapidamente em nossas instituições que hoje, praticamente, ninguém tem uma ideia clara sobre raça. As instituições de Bem-Estar Social estão preocupadas com raça a ponto de isso ser uma obsessão. O antirracismo oficial deu às questões raciais uma importância cardeal que nunca tiveram antes. As agências de Bem-Estar dividem as pessoas em grupos raciais para propósitos estatísticos com uma meticulosidade que não experimentava desde a época em que vivi, brevemente, na África do Sul há um quarto de século. (p. 191)
Por mais imbuídos ou afetados pelos valores progressistas que se tornem os policiais, os progressistas nunca os aceitarão como membros plenos da raça humana ou deixarão de criticá-los, pois, no fundo, é a mera existência da polícia o que ofende a consciência progressista, e não qualquer um de seus atos particulares. (p. 239)
Hoje a concepção prevalecente de vício, em geral, é a de uma doença caracterizada por um ímpeto irresistível (mediado neuroquimicamente e hereditário por natureza) para consumir uma droga ou uma substância, ou para se comportar de maneira autodestrutiva ou antissocial. Um viciado não tem culpa e, por seu comportamento ser a manifestação de uma doença, possui tanto conteúdo moral quanto as condições meteorológicas.
O efeito que um ladrão de carros relatou-me foi: o furto compulsivo de automóveis não era somente culpa sua, mas a responsabilidade por impedi-lo de apresentar aquele comportamento, neste caso, era minha, já que eu era o médico que o tratava. E até que a profissão médica encontrasse o equivalente comportamental de um antibiótico no tratamento da pneumonia, ele continuaria a causar um enorme sofrimento e inconveniente para os proprietários de carros e, ainda assim, considerar-se-ia, fundamentalmente, uma pessoa decente. (p. 31)
Os prisioneiros, invariavelmente, descrevem aos médicos e aos psicólogos as dificuldades de infância (que apresentam, na ocasião, como se fossem relíquias de família), os pais violentos ou ausentes, a pobreza e todas as dificuldades e desvantagens que são herança da raça urbana.
A perspectiva desonesta e interesseira fica aparente na postura com que tratam aqueles que acreditam ter-lhe feito mal. Por exemplo, sobre os policiais que supõem (volta e meia, de maneira razoável) que os tenham espancado não dizem: "Pobres policiais! Foram criados em lares autoritários e agora projetam sua raiva em mim, mas, na verdade, ela é dirigida aos pais que os maltrataram". Ao contrário, dizem com força e emoções explosivas: "os imbecis!". Pressupõem que a polícia age por livre-arbítrio para não dizer, por uma vontade malévola. (p. 33)
Os proprietários de estúdios de tatuagem são bastante tatuados, embora alguns deles, em nossas conversas privadas, tenham admitido que não se tatuariam, ao menos não numa extensão tão grande, caso pudessem voltar no tempo. (p. 77)
As tolices dos tolos são as oportunidades dos sábios, é claro. Aprendi pelas Páginas Amarelas que, para cada cinco estúdios de tatuagem, há três clínicas de remoção de tatuagem a laser (foi assim que nosso produto interno bruto cresceu). (p. 79)
Muitas vezes tentei fazer um experimento simples: numa enfermaria repleta de pacientes incapacitados, desliguei a televisão ou as televisões e deixei o recinto por cinco minutos. Infalivelmente, a televisão ou televisões estavam ligadas no momento em que eu retornava, mas quem as ligava de novo, nunca fui capaz de descobrir. Os pacientes não poderiam tê-lo feito, e as enfermeiras negam. É um mistério total, como o Sudário de Turim. As enfermeiras, no entanto, sempre dizem: "os pacientes querem a TV ligada" e continuarão a dizê-lo, muito embora uma votação informal normalmente revele o contrário.
Parece-me improvável prima facie que uma senhora de oitenta anos com hemiplegia do lado direito após um derrame, e com dificuldade de deglutição da própria saliva realmente queira assistir ao Mr. Motivador, um personal trainer fanático, numa roupa colante de lycra de cores fluorescentes, demonstrando, ao som de uma batida de discoteca incessante, os exercícios para o telespectador perder a celulite nas coxas. Há alguém na enfermaria, no entanto (um pós-modernista, talvez), que acredita que um momento sem entretenimento é um momento perdido, e que uma mente não preenchida pela bobagem de outro alguém é um vácuo do tipo que a natureza abomina. (p. 83)
Claramente, algo muito estranho está acontecendo em nossas escolas. Nossas práticas educacionais atuais são tão grotescas que seria uma afronta à pena de Jonathan Swift satirizá-la. Na grande área metropolitana em que trabalho, por exemplo, os professores receberam instruções de que não devem ministrar as tradicionais disciplinas de ortografia e gramática. Dizem que a atenção mesquinha aos detalhes da sintaxe e da ortografia inibe a criatividade da criança e a capacidade de autoexpressão. Além disso, afirmar que existe uma maneira correta de falar e de escrever é favorecer uma espécie de imperialismo cultural burguês; e dizer para a criança que ela fez algo errado é necessariamente conferir-lhe um senso de inferioridade debilitador do qual nunca se recuperará. (p. 94)
Infelizmente, é muito difícil derrubar esses incrementos pedagógicos (ou antipedagógicos) mesmo hoje, quando o governo central percebeu tardiamente as consequências desastrosas. Por quê? Primeiro, os professores e os professores dos professores nas faculdades de Pedagogia estão profundamente imbuídos dessas ideias educacionais que nos fizeram chegar a esse ponto. Segundo, uma enorme burocracia educacional cresceu na Inglaterra (um burocrata por professor, pululando como almirantes nas marinhas sul-americanas), que usa de todos os subterfúgios para evitar a mudança: da falsificação de estatísticas a interpretações errôneas intencionais da política do governo. (p. 97)
A nova ortodoxia para todas as classes é a seguinte: já que nada é melhor e nada é pior, o pior é melhor porque é mais popular. (p. 106)
Se os britânicos aceitassem, contentes, as desigualdades de renda como parte da natureza das coisas, realmente como precondição e consequência de uma sociedade livre, o efeito pernicioso da loteria nacional na moralidade da nação não seria tão grande. Seria apenas um pouco de diversão; mas a maioria dos britânicos equaciona desproporção de rendas com desigualdade e injustiça, e explica o impulso por tal enriquecimento súbito como uma espécie d vingança do pobre contra um sistema que permite a alguns acumularem uma enorme e injusta porção dos bens terrenos pelo talento e trabalho árduo. Ainda assim, há mais júbilo na Grã-Bretanha pela falência de um milionário que ficou rico pelos próprios méritos do que pelo enriquecimento de 99 pobres. (p. 124)
É a mente, e não a sociedade, que forja as algemas que mantêm as pessoas presas aos seus infortúnios. (p. 135)
O surgimento de uma subclasse indiana na Grã-Bretanha é uma questão de importância maior do que os números parecem sugerir. Não é uma resposta quase mecânica às condições econômicas, ao preconceito racial ou a qualquer outra forma de opressão amada pelos engenheiros sociais de esquerda. É a refutação de uma máxima marxista infinitamente perniciosa que tem corrompido a vida intelectual ao afirmar que "não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a consciência". Homens - até mesmo os adolescentes - pensam: e o conteúdo daquilo que pensam determina, em grande parte, o curso de suas vidas. (p. 144)
O pobre, escreveu um bispo alemão do século XVI, é uma mina de ouro; e assim, por sua vez, os moradores de rua. (p. 146)
A falta de um lar não é, ao menos na sociedade de hoje, a instância especial de uma lei, enunciada pela primeira vez por um colega médico britânico, de que a miséria aumenta para satisfazer os meios disponíveis para reduzi-la? E o comportamento antissocial não aumenta na proporção das desculpas criadas pelos intelectuais? (p. 153)
Quando externei minhas opiniões sobre os conjuntos habitacionais britânicos para um arquiteto inglês - a quem, em meu coração, imputava uma parte da culpa coletiva por aquela situação calamitosa - ele imediatamente replicou: "Sim, mas os chiqueiros fazem os porcos ou os porcos fazem os chiqueiros?" (p. 172)
É bem sabido que crianças inteligentes que não são suficientemente instigadas na escola e são obrigadas a repetir as lições que já entenderam só porque outros em sua classe, mais lentos do que elas, não as dominam, muitas vezes ficam inquietas, comportam-se mal e tornam-se até delinquentes; o que é menos percebido é que esse padrão destrutivo persiste igualmente na vida adulta. Os entediados - dentre os quais estão aqueles cujo grau de inteligência é muito incompatível com as exigências do ambiente cultural - frequentemente resolvem o problema ao fomentar crises facilmente evitáveis e totalmente previsíveis na vida pessoal. A mente, assim como a natureza, abomina o vácuo, e se nenhum interesse cativante foi desenvolvido na infância e na adolescência, tal interesse é imediatamente criado com os materiais que tem à disposição. O homem tanto é um animal criador de problemas como é um solucionador de problemas. Uma crise é melhor que o tédio permanente da insignificância. (p. 178)
Com um imenso aparato de Bem-Estar Social, que consome cerca de um quinto da renda nacional, não sobra nada para uma jovem de dezoito anos, como a que se consultou comigo semana passada, que se esforça mui valorosamente para escapar de sua triste experiência pregressa. O pai era um alcoólatra que bateu na mãe da jovem todos os dias da vida de casados, e muitas vezes também batia nos filhos, até que finalmente decidiu que já era o bastante e deixou-os. Infelizmente, o irmão mais novo de minha paciente assumiu a posição e tornou-se tão violento quanto o pai. Batia na mãe e, certo dia quebrou um vidro e usou a ponta quebrada para infligir um ferimento extremamente grave no braço esquerdo de minha paciente, do qual ela, dois anos depois, ainda não se recuperou totalmente, e provavelmente nunca o fará.
Aparentemente dotada por natureza de uma personalidade forte, minha paciente insistiu não só em chamar a polícia, mas em apresentar queixa contra o irmão, que tinha quatorze anos na ocasião. Os magistrados concederam-lhe a suspensão condicional da pena. A mãe de minha paciente, estarrecida com a falta de solidariedade familiar, expulsou-a de casa aos dezesseis anos, para cuidar de si mesma. Isso pôs um fim aos seus planos - formulados sob as mais inauspiciosas circunstâncias - de continuar os estudos e tornar-se advogada. (p. 180)
Minha paciente, é claro, é alvo fácil para arrombadores e ladrões. Sua casa já foi arrombada cinco vezes no último ano, e foi assaltada na rua três vezes no mesmo período, duas vezes na presença de transeuntes.
Esse tipo de pessoa não conta com a simpatia das autoridades. A polícia já lhe disse, mais de uma vez, que a culpa era ela: alguém assim não deveria viver em um local como aquele. As ruas, em outras palavras, devem estar livres para hooligans, vândalos e assaltantes exercerem seus ofícios inevitáveis em paz, sendo dever dos cidadãos evitá-los. Não faz parte do dever do Estado defender as ruas de tais pessoas. (p. 184)
A vida nos bairros pobres da Grã-Bretanha demonstra o que acontece quando a maior parte da população, bem como as autoridades, perde a fé na hierarquia de valores. O resultado é todo tipo de patologia: onde o conhecimento não é preferível à ignorância, e a alta cultura à baixa, os inteligentes e os que têm sensibilidade sofrem a perda total do significado das coisas. O inteligente se autodestrói e o que tem sensibilidade perde as esperanças e onde a decorosa sensibilidade não é alimentada, encorajada, apoiada ou protegida, abunda a brutalidade. (p. 186)
O politicamente correto penetrou tão rapidamente em nossas instituições que hoje, praticamente, ninguém tem uma ideia clara sobre raça. As instituições de Bem-Estar Social estão preocupadas com raça a ponto de isso ser uma obsessão. O antirracismo oficial deu às questões raciais uma importância cardeal que nunca tiveram antes. As agências de Bem-Estar dividem as pessoas em grupos raciais para propósitos estatísticos com uma meticulosidade que não experimentava desde a época em que vivi, brevemente, na África do Sul há um quarto de século. (p. 191)
Por mais imbuídos ou afetados pelos valores progressistas que se tornem os policiais, os progressistas nunca os aceitarão como membros plenos da raça humana ou deixarão de criticá-los, pois, no fundo, é a mera existência da polícia o que ofende a consciência progressista, e não qualquer um de seus atos particulares. (p. 239)
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
A pré-história da mente - Uma busca das origens da arte, da religião e da ciência - Steven Mithen (2002)
As últimas duas décadas presenciaram um notável avanço no campo do comportamento e das relações evolutivas dos nossos antepassados. De fato, atualmente, muitos arqueólogos estão certos de que chegou o momento de ir além das questões sobre a aparência e o comportamento desses ancestrais e começar a fazer perguntas sobre o que se passava nas suas mentes. É o tempo da "arqueologia cognitiva". A necessidade de tal avanço é particularmente evidente ao considerarmos o padrão de expansão do cérebro ao longo da evolução humana e sua relação - ou ausência de uma - com mudanças do comportamento anterior. Fica claro que não existe uma relação simples entre volume do cérebro, "inteligência" e comportamento. (p. 20)
Um dos argumentos da nova psicologia evolutiva é que a noção da mente como mecanismo de aprendizado geral, como se fosse um tipo de computador poderoso, é incorreta. Ela constitui o pensamento dominante dentro das ciências sociais, assim como também a visão (de "bom sonso"). Segundo os psicólogos evolutivos, essa noção deveria ser substituída por outra que define a mente como uma série de "domínios cognitivos", ou "inteligências", ou "módulos" especializados, cada qual dedicado a algum tipo específico de comportamento - como os módulos para a aquisição da linguagem, ou das habilidades de utilizar ferramentas, ou de interagir socialmente. (p. 23)
Assim como a de outras crianças, a mente de Nicholas parecia uma esponja absorvendo conhecimento. Novos fatos e ideias penetrando em um arranjo infinito de poros vazios. E digo mais, jovens mentes em diferentes partes do mundo absorverão coisas diferentes. Elas estarão adquirindo culturas distintas. E as culturas, segundo nos contam os antropólogos, não são apenas listas de fatos sobre o mundo, e sim maneiras específicas de pensar e compreender: a mente-esponja é aquela que absorve os próprios processos de pensamento. (p. 57)
Uma análise do trabalho de Tom Wynn mostrou que ele não havia cometido nenhum erro ao usar as ideias de Piaget. Fabricar um machado de mão que fosse simétrico em três dimensões com certeza parecia envolver os tipos de processos mentais que Piaget alegava serem característicos da inteligência operatório-formal. Talvez as ideias de Piaget é que estivessem erradas. Esse tem sido, de fato, o recado de muitos psicólogos ao longo da última década: a mente não opera programas de utilidade geral, tampouco é uma esponja que absorve indiscriminadamente qualquer informação disponível. Os psicólogos introduziram um novo tipo de analogia: a mente é como um canivete suíço. Um canivete suíço? Sim, um desses canivetes bojudos com um monte de equipamentos úteis, como tesouras, serrinhas e pinças. Cada elemento do canivete foi projetado para solucionar um tipo de problema bem específico. (p. 61)
Resumindo, Fodor acredita que a mente possui uma arquitetura de dois níveis; o inferior é como um canivete suíço e o superior, como... Bem, não podemos descrevê-lo porque não existe nada igual a ele no mundo. (p. 63)
Gardner sugere, portanto, que a arquitetura da mente é constituída por uma série de inteligências relativamente autônomas. (p. 65)
Na medida em que esse modo de vida terminou há apenas uma fração de tempo em termos evolutivos, nossas mentes permaneceram adaptadas à caça e à coleta. Como consequência disso, C & T argumentam que a mente é um canivete suíço com um grande número de lâminas altamente especializadas; em outras palavras, é composta de módulos mentais múltiplos. Cada uma dessas lâminas/módulos foi projetada pela seleção natural para lidar com um determinado problema adaptativo enfrentado pelos caçadores-coletores durante nosso passado. (p. 68)
Uma das melhores narrativas da intrincada rede social dos chimpanzés é de autoria de Franz de Waal (1982), que descreveu maravilhosamente suas observações sobre a política desses animais enquanto estudava uma colônia do Zoológico de Burger, em Arhem. Ele nos presenteia com uma história de ambição, manipulação social, privilégios sexuais e tomadas de poder que deixariam sem graça qualquer aspirante a político - e foi tudo realizado por chimpanzés (maquiavélicos). Por exemplo, De Waal descreve a guerra pelo poder entre dois machos mais velhos, Yeroen e Luit, que durou dois meses. Começa com Yeronen como o macho dominante e continua por uma série de encontros agressivos, blefes e gestos de reconciliação de Yeroen. Para conseguir isso, Luit diligentemente conquistou o apoio das fêmeas do grupo, que no início aprovavam Yeroen. Luit ignorava as fêmeas na presença de Yeroen, mas lhes dava muita atenção e brincava com seus filhotes quando esse macho não estava por perto. E antes do grooming de cada fêmea, como que tentando obter seu apoio. O sucesso final de Luit resultou da aliança com outro macho, Nikkie. Durante os conflitos com Yeroen, Luit dependia de Nikkie para espantar as fêmeas partidárias do seu adversário. Nikkie, por sua vez, tinha muito a ganhar com isso. Ele começou ocupando uma posição social muito baixa no grupo, sendo ignorado pela fêmeas, mas quando Luit chegou a líder, passou ao segundo cargo de comando na hierarquia, acima das fêmeas e de Yeroen. Tão logo se tornou vitorioso, as atitudes sociais de Luit mudaram: em vez de ser a fonte de conflitos, transformou-se em campeão da paz e da estabilidade. Sempre que as fêmeas brigavam ele punha um fim nas contendas, sem tomar partido, e batia em qualquer uma que continuasse discordando. Em outras ocasiões, Luit impedia um conflito escalonado dentro do grupo ao apoiar o participante mais fraco. Punha Nikkie para correr, por exemplo, quando ele atacava Amber, uma das fêmeas. Depois de alguns meses como o macho dominante, Luit perdeu sua posição para Nikkie. E isso somente foi possível quando Nikkie formou uma poderosa aliança com ninguém menos que Yeroen. (p. 130)
Os humanos arcaicos, no entanto, não habitavam várias regiões do Velho Mundo nem chegaram até a Austrália ou as Américas. Clive Gamble (1993), uma das maiores autoridades em comportamento dos humanos arcaicos, reavaliou há pouco tempo a evidência da colonização global e concluiu que eles eram incapazes de lidar com ambientes muito secos e muito frios. Esses parecem ter sido desafios excessivos, mesmo possuindo-se uma inteligência naturalista bem desenvolvida e a capacidade de produzir instrumentos como machados de mão. Ainda nãos e sabe ao certo de que maneiras os humanos arcaicos exploraram esses ambientes diversos. (p. 198)
Uma inteligência naturalista bem desenvolvida parece ter sido essencial aos estilos de vida dos humanos arcaicos, pelo que se infere dos registros arqueológicos. (p. 204)
Podemos afirmar com segurança que, apesar de diferenças linguísticas, todos os humanos arcaicos partilhavam a mesma mente básica: uma mentalidade do tipo canivete suíço. Possuíam inteligências múltiplas, cada qual dedicada a um domínio comportamental específico, e havia pouca interação entre elas. Podemos realmente imaginar a mente humana arcaica como uma catedral abrigando várias capelas isoladas, dentro das quais se realizavam serviços de pensamento únicos, que mal podiam ser ouvidos em outro lugar do edifício. (p. 225)
Também podemos imaginar os pensamentos e o conhecimento das capelas técnicas e naturalista filtrando-se através das paredes das capelas social e linguística e invadindo seus espaços de forma surda, abafada. Tendo chegado lá, passaram a ser utilizados pela inteligência linguística durante as emissões de elocuções. (p. 307)
Uma grande parte da atividade mental provavelmente mantém-se fora do nosso alcance, dentro de nossa mente inconsciente. Artesões, por exemplo, com frequência parecem não estar conscientes do conhecimento técnico e perícia que utilizam. Se alguém lhes pergunta como se faz um vaso de argila no torno, muitas vezes eles têm dificuldades em dar explicações, a não ser por meio de uma demonstração prática. As ações com certeza falam mais alto que as palavras quando o conhecimento técnico está "aprisionado" dentro de um domínio cognitivo especializado. Isso enfatiza a importância do ensino verbal de uma técnica, que somente começou no início do Paleolítico, na França, ou Trollesgave, na Dinamarca (cf. Pigeot, 1990; Fischer, 1990). (p. 312)
Os indivíduos capazes de explorar pedacinhos de conversação não social encontravam-se numa posição de vantagem seletiva, na medida em que podiam integrar o conhecimento antes "aprisionado" dentro das inteligências especializadas. (p. 314)
O antropólogo social Chris Knight e seus colaboradores argumentaram que as fêmeas dos primeiros humanos modernos resolveram o problema das crescentes demandas energéticas dos cérebros de seus bebês explorando "níveis até então desconhecidos do investimento eenergético dos machos" (Knight et al., 1995). Esses pesquisadores sugerem que o comportamento das fêmeas forçou os machos a fornecer-lhes alimentos de alta qualidade, obtidos pela caça. Um importante subterfúgio feminino nesse contexto teria sido a "greve de sexo" e o uso do ocre vermelho para "simular menstruação". (p. 315)
Assim como a ascendência arborícola dos australopitecinos possibilitou a evolução do bipedalismo, a própria bipedia tornou possível a evolução de uma capacidade aumentada de vocalização entre os primeiros Homo, particularmente em H. erectus. Leslie Aiello (1996a, b) deixa isso muito claro. Ela explicou como a postura em pé da bipedia causou um rebaixamento da laringe, cuja posição na garganta torna-se mais baixa que a encontrada nos grandes símios. Maior capacidade de produzir sons de vogais e consoantes foi um subproduto e não causa da nova posição da laringe. Além disso, mudanças na respiração, associadas à bipedia, deve ter melhorado a qualidade dos sons. O aumento no consumo de carne também gerou um importante subproduto linguístico, porque o tamanho dos dentes pôde diminuir graças à maior facilidade de mastigar carne e gordura em vez de grandes quantidades de material vegetal seco. Essa redução alterou a geometria das mandíbulas, possibilitando o desenvolvimento de músculos para o controle de movimentos finos da língua dentro da boca, necessários para a agama diversificada de sons de alta qualidade exigidos pela linguagem. (p. 337)
Um dos argumentos da nova psicologia evolutiva é que a noção da mente como mecanismo de aprendizado geral, como se fosse um tipo de computador poderoso, é incorreta. Ela constitui o pensamento dominante dentro das ciências sociais, assim como também a visão (de "bom sonso"). Segundo os psicólogos evolutivos, essa noção deveria ser substituída por outra que define a mente como uma série de "domínios cognitivos", ou "inteligências", ou "módulos" especializados, cada qual dedicado a algum tipo específico de comportamento - como os módulos para a aquisição da linguagem, ou das habilidades de utilizar ferramentas, ou de interagir socialmente. (p. 23)
Assim como a de outras crianças, a mente de Nicholas parecia uma esponja absorvendo conhecimento. Novos fatos e ideias penetrando em um arranjo infinito de poros vazios. E digo mais, jovens mentes em diferentes partes do mundo absorverão coisas diferentes. Elas estarão adquirindo culturas distintas. E as culturas, segundo nos contam os antropólogos, não são apenas listas de fatos sobre o mundo, e sim maneiras específicas de pensar e compreender: a mente-esponja é aquela que absorve os próprios processos de pensamento. (p. 57)
Uma análise do trabalho de Tom Wynn mostrou que ele não havia cometido nenhum erro ao usar as ideias de Piaget. Fabricar um machado de mão que fosse simétrico em três dimensões com certeza parecia envolver os tipos de processos mentais que Piaget alegava serem característicos da inteligência operatório-formal. Talvez as ideias de Piaget é que estivessem erradas. Esse tem sido, de fato, o recado de muitos psicólogos ao longo da última década: a mente não opera programas de utilidade geral, tampouco é uma esponja que absorve indiscriminadamente qualquer informação disponível. Os psicólogos introduziram um novo tipo de analogia: a mente é como um canivete suíço. Um canivete suíço? Sim, um desses canivetes bojudos com um monte de equipamentos úteis, como tesouras, serrinhas e pinças. Cada elemento do canivete foi projetado para solucionar um tipo de problema bem específico. (p. 61)
Resumindo, Fodor acredita que a mente possui uma arquitetura de dois níveis; o inferior é como um canivete suíço e o superior, como... Bem, não podemos descrevê-lo porque não existe nada igual a ele no mundo. (p. 63)
Gardner sugere, portanto, que a arquitetura da mente é constituída por uma série de inteligências relativamente autônomas. (p. 65)
Na medida em que esse modo de vida terminou há apenas uma fração de tempo em termos evolutivos, nossas mentes permaneceram adaptadas à caça e à coleta. Como consequência disso, C & T argumentam que a mente é um canivete suíço com um grande número de lâminas altamente especializadas; em outras palavras, é composta de módulos mentais múltiplos. Cada uma dessas lâminas/módulos foi projetada pela seleção natural para lidar com um determinado problema adaptativo enfrentado pelos caçadores-coletores durante nosso passado. (p. 68)
Uma das melhores narrativas da intrincada rede social dos chimpanzés é de autoria de Franz de Waal (1982), que descreveu maravilhosamente suas observações sobre a política desses animais enquanto estudava uma colônia do Zoológico de Burger, em Arhem. Ele nos presenteia com uma história de ambição, manipulação social, privilégios sexuais e tomadas de poder que deixariam sem graça qualquer aspirante a político - e foi tudo realizado por chimpanzés (maquiavélicos). Por exemplo, De Waal descreve a guerra pelo poder entre dois machos mais velhos, Yeroen e Luit, que durou dois meses. Começa com Yeronen como o macho dominante e continua por uma série de encontros agressivos, blefes e gestos de reconciliação de Yeroen. Para conseguir isso, Luit diligentemente conquistou o apoio das fêmeas do grupo, que no início aprovavam Yeroen. Luit ignorava as fêmeas na presença de Yeroen, mas lhes dava muita atenção e brincava com seus filhotes quando esse macho não estava por perto. E antes do grooming de cada fêmea, como que tentando obter seu apoio. O sucesso final de Luit resultou da aliança com outro macho, Nikkie. Durante os conflitos com Yeroen, Luit dependia de Nikkie para espantar as fêmeas partidárias do seu adversário. Nikkie, por sua vez, tinha muito a ganhar com isso. Ele começou ocupando uma posição social muito baixa no grupo, sendo ignorado pela fêmeas, mas quando Luit chegou a líder, passou ao segundo cargo de comando na hierarquia, acima das fêmeas e de Yeroen. Tão logo se tornou vitorioso, as atitudes sociais de Luit mudaram: em vez de ser a fonte de conflitos, transformou-se em campeão da paz e da estabilidade. Sempre que as fêmeas brigavam ele punha um fim nas contendas, sem tomar partido, e batia em qualquer uma que continuasse discordando. Em outras ocasiões, Luit impedia um conflito escalonado dentro do grupo ao apoiar o participante mais fraco. Punha Nikkie para correr, por exemplo, quando ele atacava Amber, uma das fêmeas. Depois de alguns meses como o macho dominante, Luit perdeu sua posição para Nikkie. E isso somente foi possível quando Nikkie formou uma poderosa aliança com ninguém menos que Yeroen. (p. 130)
Os humanos arcaicos, no entanto, não habitavam várias regiões do Velho Mundo nem chegaram até a Austrália ou as Américas. Clive Gamble (1993), uma das maiores autoridades em comportamento dos humanos arcaicos, reavaliou há pouco tempo a evidência da colonização global e concluiu que eles eram incapazes de lidar com ambientes muito secos e muito frios. Esses parecem ter sido desafios excessivos, mesmo possuindo-se uma inteligência naturalista bem desenvolvida e a capacidade de produzir instrumentos como machados de mão. Ainda nãos e sabe ao certo de que maneiras os humanos arcaicos exploraram esses ambientes diversos. (p. 198)
Uma inteligência naturalista bem desenvolvida parece ter sido essencial aos estilos de vida dos humanos arcaicos, pelo que se infere dos registros arqueológicos. (p. 204)
Podemos afirmar com segurança que, apesar de diferenças linguísticas, todos os humanos arcaicos partilhavam a mesma mente básica: uma mentalidade do tipo canivete suíço. Possuíam inteligências múltiplas, cada qual dedicada a um domínio comportamental específico, e havia pouca interação entre elas. Podemos realmente imaginar a mente humana arcaica como uma catedral abrigando várias capelas isoladas, dentro das quais se realizavam serviços de pensamento únicos, que mal podiam ser ouvidos em outro lugar do edifício. (p. 225)
Também podemos imaginar os pensamentos e o conhecimento das capelas técnicas e naturalista filtrando-se através das paredes das capelas social e linguística e invadindo seus espaços de forma surda, abafada. Tendo chegado lá, passaram a ser utilizados pela inteligência linguística durante as emissões de elocuções. (p. 307)
Uma grande parte da atividade mental provavelmente mantém-se fora do nosso alcance, dentro de nossa mente inconsciente. Artesões, por exemplo, com frequência parecem não estar conscientes do conhecimento técnico e perícia que utilizam. Se alguém lhes pergunta como se faz um vaso de argila no torno, muitas vezes eles têm dificuldades em dar explicações, a não ser por meio de uma demonstração prática. As ações com certeza falam mais alto que as palavras quando o conhecimento técnico está "aprisionado" dentro de um domínio cognitivo especializado. Isso enfatiza a importância do ensino verbal de uma técnica, que somente começou no início do Paleolítico, na França, ou Trollesgave, na Dinamarca (cf. Pigeot, 1990; Fischer, 1990). (p. 312)
Os indivíduos capazes de explorar pedacinhos de conversação não social encontravam-se numa posição de vantagem seletiva, na medida em que podiam integrar o conhecimento antes "aprisionado" dentro das inteligências especializadas. (p. 314)
O antropólogo social Chris Knight e seus colaboradores argumentaram que as fêmeas dos primeiros humanos modernos resolveram o problema das crescentes demandas energéticas dos cérebros de seus bebês explorando "níveis até então desconhecidos do investimento eenergético dos machos" (Knight et al., 1995). Esses pesquisadores sugerem que o comportamento das fêmeas forçou os machos a fornecer-lhes alimentos de alta qualidade, obtidos pela caça. Um importante subterfúgio feminino nesse contexto teria sido a "greve de sexo" e o uso do ocre vermelho para "simular menstruação". (p. 315)
Assim como a ascendência arborícola dos australopitecinos possibilitou a evolução do bipedalismo, a própria bipedia tornou possível a evolução de uma capacidade aumentada de vocalização entre os primeiros Homo, particularmente em H. erectus. Leslie Aiello (1996a, b) deixa isso muito claro. Ela explicou como a postura em pé da bipedia causou um rebaixamento da laringe, cuja posição na garganta torna-se mais baixa que a encontrada nos grandes símios. Maior capacidade de produzir sons de vogais e consoantes foi um subproduto e não causa da nova posição da laringe. Além disso, mudanças na respiração, associadas à bipedia, deve ter melhorado a qualidade dos sons. O aumento no consumo de carne também gerou um importante subproduto linguístico, porque o tamanho dos dentes pôde diminuir graças à maior facilidade de mastigar carne e gordura em vez de grandes quantidades de material vegetal seco. Essa redução alterou a geometria das mandíbulas, possibilitando o desenvolvimento de músculos para o controle de movimentos finos da língua dentro da boca, necessários para a agama diversificada de sons de alta qualidade exigidos pela linguagem. (p. 337)
domingo, 16 de outubro de 2016
Alucinações musicais - Relatos sobre a música e o cérebro - Oliver Sacks (2007)
Há alguns indícios de que os aspectos tanto visuoespaciais como vestibulares das experiências extracorpóreas estão relacionados à perturbação da função do córtex cerebral, especialmente na região de ligamento entre os lobos temporais e parietais. (p. 26)
Desde meados dos anos 1990, estudos realizados por Robert Zatorre e seus colegas usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstraram que, de fato, imaginar música pode ativar o córtex auditivo quase com a mesma intensidade da ativação causada por ouvir música. Imaginar música também estimula o córtex motor, e, inversamente, imaginar a ação de tocar música estimula o córtex auditivo. (p. 44)
Em seu livro The haunting melody: psychoanalytic experiences in life and music, Theodor Reik escreveu sobre os fragmentos musicais ou melodias que ocorrem no decorrer de uma sessão de análise: "Melodias que nos passam pela cabeça [...] podem dar ao analista uma pista para a vida secreta de emoções que cada um de nós vivencia. [...] Nesse cantar interior, a voz de um self desconhecido comunica não só humores e ímpetos passageiros, mas às vezes também um desejo repudiado ou negado, um anseio e um impulso que não gostamos de admitir para nós mesmos. [...] Seja qual for a mensagem secreta que transmita, a música incidental que acompanha nosso pensamento consciente nunca é acidental". (p. 50)
Com o advento das técnicas de imageamento cerebral na década de 1990, tornou-se possível visualizar o cérebro de músicos e compará-lo ao de não músicos. Usando a morfometria por ressonância magnética, Gottfried Schlaug e seus colegas de Harvard fizeram minuciosas comparações do tamanho de várias estruturas cerebrais. Em 1995. publicaram um artigo demonstrando que o corpo caloso, a grande comissura que liga os dois hemisférios cerebrais, é maior em músicos profissionais, e que uma parte do córtex auditivo, o plano temporal, apresenta um aumento assimétrico nos músicos dotados de ouvido absoluto. Schlaug et al. apontaram também volumes maiores de massa cinzenta nas áreas motoras, auditivas e visuoespaciais do córtex, bem como no cerebelo. Hoje os anatomistas teriam dificuldade para identificar o cérebro de um artista plástico, um escritor ou um matemático, mas poderiam reconhecer sem hesitação o de um músico profissional. (p. 105)
Belin, Zatorre e seus colegas encontraram no córtex auditivo áreas "seletivas para vozes" que são anatomicamente separadas das áreas envolvidas na percepção do timbre musical. (p. 120)
Há um século e meio sabemos que existe uma especialização relativa (mas não absoluta) das funções dos dois lados do cérebro. O desenvolvimento das habilidades abstratas e verbais associa-se especialmente ao hemisfério esquerdo ou dominante, e as habilidades perceptuais ao direito. Essa assimetria hemisférica é muito pronunciada nos humanos (e está presente em menor grau nos primatas e em alguns outros mamíferos), sendo observável inclusive no útero. No feto, e talvez na criança muito pequena, a situação é invertida, pois o hemisfério direito desenvolve-se mais cedo e mais rapidamente do que o esquerdo, permitindo assim que funções perceptuais estabeleçam-se nos primeiros dias e semanas de vida. O hemisfério esquerdo demora mais para desenvolver-se, mas continua a mudar de modo fundamental após o nascimento. (p. 167)
Somos uma espécie linguística. Recorremos à linguagem para expressar o que quer que estejamos pensando, e em geral ela está à nossa disposição para ser usada instantaneamente. Mas para os portadores de afasia, a incapacidade de comunicar-se verbalmente pode ser quase insuportável por causa da frustração e do isolamento decorrentes. Para piorar, essas pessoas muitas vezes são tratadas como idiotas, quase como não pessoas, porque não conseguem falar. (p. 228)
Com efeito, existem indícios de que as partes mediais do cérebro que nos permitem sentir emoções profundas - especialmente a amígdala - podem ser pouco desenvolvidas nos portadores da síndrome de Asperger. (p. 304)
Não ser exposto à música na infância poderia causar algum tipo de amusia, do mesmo jeito que não ser exposto à linguagem no período crítico pode prejudicar a competência linguística pelo resto da vida? (p. 305)
Ele comprou um saxofone e em um ano estava tocando profissionalmente em clubes da cidade; depois desistiu e partiu para sua adorada Europa para ganhar alguns trocados tocando enquanto aplicava golpes em pessoas ingênuas e confiantes. Em algum lugar, em alguma esquina escura de Praga, Zurique, Atenas ou Amsterdam, multidões passam por um solitário saxofonista tocando apaixonadamente, sem jamais desconfiarem que ele é o homem que chamo de "o maior compositor vivo da América" e também um perigoso psicopata. (p. 321)
Em contraste com a doença de Alzheimer, que geralmente se manifesta com perda de memória ou cognitiva, a demência frontotemporal com frequência se inicia com alterações de comportamento:desinibições de um tipo ou de outro. Talvez seja por isso que às vezes os familiares e os médicos demoram a detectar o problema. Para confundir, não existe um quadro clínico constante, mas uma variedade de sintomas, dependendo do lado do cérebro mais afetado e de se o dano se localiza principalmente nos lobos frontais ou temporais. Os aparecimentos de talentos artísticos e musicais que Miller e outros observaram ocorrem apenas em pacientes com lesão sobretudo no lobo temporal esquerdo. (p. 326)
O fato de que toda a panóplia de talentos musicais podia ser tão extraordinariamente desenvolvida em pessoas com deficiências (algumas graves) na inteligência geral mostrou, tanto quanto as capacidades musicais isoladas dos savants musicais, que de fato se podia falar em uma "inteligência musical" específica, como postulara Howard Gardner em sua teoria das inteligências múltiplas. (p. 346)
As três inclinações tão pronunciadas nas pessoas com síndrome de Williams - a musical, a narrativa e a social - parecem andar juntas, ser elementos distintos mas intimamente associados do arrebatador impulso expressivo e comunicativo que é absolutamente fundamental nessa síndrome. (p. 347)
Todos esses estudos, na opinião de Bellugi, indicam que "o cérebro dos indivíduos com síndrome de Williams é organizado de modo diferente do das pessoas normais, tanto no nível macro como no micro". As características mentais e emocionais muito distintas das pessoas com síndrome de Williams refletem-se com grande precisão e beleza nas singularidades de seu cérebro. Embora esse estudo das bases neurais da síndrome de Williams esteja longe de ser completo, ele possibilitou fazer a mais extensa correlação já vista entre numerosas características mentais e comportamentais e sua base cerebral. (p. 348)
Em 1994 visitei Heidi Comfort, uma menina som síndrome de Williams, em sua casa no sul da Califórnia. Com oito anos, muito segura de si, ela imediatamente detectou minha timidez e disse para me encorajar: "Não se acanhe, senhor Sacks". (p. 349)
Sua mãe, Caroç Zitzer-Comfort, disse-me que certa vez aconselhara a menina a não falar com estranhos, ao que Heidi replicou: "Não existem estranhos, só amigos". (p. 350)
Os círculos de percussão constituem outra forma de musicoterapia que pode ser inestimável para pessoas com demência, pois, como a dança, a percussão comunica-se com níveis muito fundamentais, subcorticais, do cérebro. A música nesse nível, um nível inferior ao pessoal e ao mental, um nível puramente físico ou corporal, dispensa a melodia e o conteúdo específico, ou afeto, da canção - mas requer, indispensavelmente, o ritmo. O ritmo pode restaurar nossa noção de habitar um corpo e um senso primordial de movimento e vida (p. 362)
Desde meados dos anos 1990, estudos realizados por Robert Zatorre e seus colegas usando avançadas técnicas de neuroimagem demonstraram que, de fato, imaginar música pode ativar o córtex auditivo quase com a mesma intensidade da ativação causada por ouvir música. Imaginar música também estimula o córtex motor, e, inversamente, imaginar a ação de tocar música estimula o córtex auditivo. (p. 44)
Em seu livro The haunting melody: psychoanalytic experiences in life and music, Theodor Reik escreveu sobre os fragmentos musicais ou melodias que ocorrem no decorrer de uma sessão de análise: "Melodias que nos passam pela cabeça [...] podem dar ao analista uma pista para a vida secreta de emoções que cada um de nós vivencia. [...] Nesse cantar interior, a voz de um self desconhecido comunica não só humores e ímpetos passageiros, mas às vezes também um desejo repudiado ou negado, um anseio e um impulso que não gostamos de admitir para nós mesmos. [...] Seja qual for a mensagem secreta que transmita, a música incidental que acompanha nosso pensamento consciente nunca é acidental". (p. 50)
Com o advento das técnicas de imageamento cerebral na década de 1990, tornou-se possível visualizar o cérebro de músicos e compará-lo ao de não músicos. Usando a morfometria por ressonância magnética, Gottfried Schlaug e seus colegas de Harvard fizeram minuciosas comparações do tamanho de várias estruturas cerebrais. Em 1995. publicaram um artigo demonstrando que o corpo caloso, a grande comissura que liga os dois hemisférios cerebrais, é maior em músicos profissionais, e que uma parte do córtex auditivo, o plano temporal, apresenta um aumento assimétrico nos músicos dotados de ouvido absoluto. Schlaug et al. apontaram também volumes maiores de massa cinzenta nas áreas motoras, auditivas e visuoespaciais do córtex, bem como no cerebelo. Hoje os anatomistas teriam dificuldade para identificar o cérebro de um artista plástico, um escritor ou um matemático, mas poderiam reconhecer sem hesitação o de um músico profissional. (p. 105)
Belin, Zatorre e seus colegas encontraram no córtex auditivo áreas "seletivas para vozes" que são anatomicamente separadas das áreas envolvidas na percepção do timbre musical. (p. 120)
Há um século e meio sabemos que existe uma especialização relativa (mas não absoluta) das funções dos dois lados do cérebro. O desenvolvimento das habilidades abstratas e verbais associa-se especialmente ao hemisfério esquerdo ou dominante, e as habilidades perceptuais ao direito. Essa assimetria hemisférica é muito pronunciada nos humanos (e está presente em menor grau nos primatas e em alguns outros mamíferos), sendo observável inclusive no útero. No feto, e talvez na criança muito pequena, a situação é invertida, pois o hemisfério direito desenvolve-se mais cedo e mais rapidamente do que o esquerdo, permitindo assim que funções perceptuais estabeleçam-se nos primeiros dias e semanas de vida. O hemisfério esquerdo demora mais para desenvolver-se, mas continua a mudar de modo fundamental após o nascimento. (p. 167)
Somos uma espécie linguística. Recorremos à linguagem para expressar o que quer que estejamos pensando, e em geral ela está à nossa disposição para ser usada instantaneamente. Mas para os portadores de afasia, a incapacidade de comunicar-se verbalmente pode ser quase insuportável por causa da frustração e do isolamento decorrentes. Para piorar, essas pessoas muitas vezes são tratadas como idiotas, quase como não pessoas, porque não conseguem falar. (p. 228)
Com efeito, existem indícios de que as partes mediais do cérebro que nos permitem sentir emoções profundas - especialmente a amígdala - podem ser pouco desenvolvidas nos portadores da síndrome de Asperger. (p. 304)
Não ser exposto à música na infância poderia causar algum tipo de amusia, do mesmo jeito que não ser exposto à linguagem no período crítico pode prejudicar a competência linguística pelo resto da vida? (p. 305)
Ele comprou um saxofone e em um ano estava tocando profissionalmente em clubes da cidade; depois desistiu e partiu para sua adorada Europa para ganhar alguns trocados tocando enquanto aplicava golpes em pessoas ingênuas e confiantes. Em algum lugar, em alguma esquina escura de Praga, Zurique, Atenas ou Amsterdam, multidões passam por um solitário saxofonista tocando apaixonadamente, sem jamais desconfiarem que ele é o homem que chamo de "o maior compositor vivo da América" e também um perigoso psicopata. (p. 321)
Em contraste com a doença de Alzheimer, que geralmente se manifesta com perda de memória ou cognitiva, a demência frontotemporal com frequência se inicia com alterações de comportamento:desinibições de um tipo ou de outro. Talvez seja por isso que às vezes os familiares e os médicos demoram a detectar o problema. Para confundir, não existe um quadro clínico constante, mas uma variedade de sintomas, dependendo do lado do cérebro mais afetado e de se o dano se localiza principalmente nos lobos frontais ou temporais. Os aparecimentos de talentos artísticos e musicais que Miller e outros observaram ocorrem apenas em pacientes com lesão sobretudo no lobo temporal esquerdo. (p. 326)
O fato de que toda a panóplia de talentos musicais podia ser tão extraordinariamente desenvolvida em pessoas com deficiências (algumas graves) na inteligência geral mostrou, tanto quanto as capacidades musicais isoladas dos savants musicais, que de fato se podia falar em uma "inteligência musical" específica, como postulara Howard Gardner em sua teoria das inteligências múltiplas. (p. 346)
As três inclinações tão pronunciadas nas pessoas com síndrome de Williams - a musical, a narrativa e a social - parecem andar juntas, ser elementos distintos mas intimamente associados do arrebatador impulso expressivo e comunicativo que é absolutamente fundamental nessa síndrome. (p. 347)
Todos esses estudos, na opinião de Bellugi, indicam que "o cérebro dos indivíduos com síndrome de Williams é organizado de modo diferente do das pessoas normais, tanto no nível macro como no micro". As características mentais e emocionais muito distintas das pessoas com síndrome de Williams refletem-se com grande precisão e beleza nas singularidades de seu cérebro. Embora esse estudo das bases neurais da síndrome de Williams esteja longe de ser completo, ele possibilitou fazer a mais extensa correlação já vista entre numerosas características mentais e comportamentais e sua base cerebral. (p. 348)
Em 1994 visitei Heidi Comfort, uma menina som síndrome de Williams, em sua casa no sul da Califórnia. Com oito anos, muito segura de si, ela imediatamente detectou minha timidez e disse para me encorajar: "Não se acanhe, senhor Sacks". (p. 349)
Sua mãe, Caroç Zitzer-Comfort, disse-me que certa vez aconselhara a menina a não falar com estranhos, ao que Heidi replicou: "Não existem estranhos, só amigos". (p. 350)
Os círculos de percussão constituem outra forma de musicoterapia que pode ser inestimável para pessoas com demência, pois, como a dança, a percussão comunica-se com níveis muito fundamentais, subcorticais, do cérebro. A música nesse nível, um nível inferior ao pessoal e ao mental, um nível puramente físico ou corporal, dispensa a melodia e o conteúdo específico, ou afeto, da canção - mas requer, indispensavelmente, o ritmo. O ritmo pode restaurar nossa noção de habitar um corpo e um senso primordial de movimento e vida (p. 362)
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
PPB Aula 6 Pensamento e Linguagem
PENSAMENTO
Para
pensar sobre os incontáveis eventos, objetos e pessoas em nosso
mundo, nós simplificamos as coisas. Para isso formamos conceitos,
que
são
agrupamentos
mentais de objetos, eventos e pessoas semelhantes. Por exemplo, no
caso de uma cadeira: temos vários tipos de cadeiras, alta,
reclinável, de bebê, de dentista; mas todas servem para sentar.
Para
simplificar ainda mais, criamos hierarquias
de
categorias, ou seja, subdividimos essas categorias em unidades
menores e mais detalhadas.
Formamos
os conceitos por definição,
por
exemplo, se um triângulo tem três lados, tudo o que tiver três
lados será um triângulo.
Solução
de problemas
Um
tributo à nossa racionalidade é nossa c
apacidade
de resolver problemas e lidar com novas situações.
Alguns
problemas são resolvidos pelo método de tentativa
e erro.
Para
outros problemas, usamos algoritmos,
conjunto
de
regras
e procedimentos completo que garante a solução, ainda que demorado.
Ex.: descrição passo a passo para a evacuação de um prédio em
caso de incêndio.
Heurística
é
uma estratégia de pensamento mais simples que pode nos ajudar a
resolver problemas rapidamente, mas que, por vezes, nos leva a
soluções incorretas. Seguindo o exemplo acima, seria como correr
para a sala ao lado ao sentir cheiro de fumaça.
Um
insight
é
um súbito lampejo de inspiração que resolve um problema.
Mas,
por mais inventivos que sejamos na resolução de problemas, a
resposta certa pode nos iludir.
Com
o viés
de confirmação, tendemos
a buscar provas que confirmem nossas hipóteses com mais disposição
do que buscar provas em contrário, sendo este um grande obstáculo
para a resolução de problemas.
A
fixação
é
a inabilidade de ver um problema sob uma nova perspectiva. Às vezes,
no entanto, um conjunto mental baseado no que funcionou no passado
exclui a possibilidade de descobrirmos uma nova solução para um
novo problema. Dois exemplos de fixação:
-
Conjunto mental – tendência de abordar um problema com a mente baseada em soluções que funcionaram anteriormente.
-
Fixação funcional – tendência a pensar apenas nas funções que nos são familiares para os objetos, sem imaginar usos alternati-vos. Por exemplo, uma pessoa pode revirar a casa em busca de uma chave de fenda, enquanto uma moeda poderia ser usada para girar um parafuso.
Desafio:
Como você organiza 6 palitos de fósforo para formarem 4 triângulos?
Se você não conseguiu é porque não está “pensando fora da
caixinha”, ou seja, tendo um pensamento livre das amarras
convencionais. (Respostas no fim do material)
Tomada
de decisões e julgamentos
Quando
tomamos decisões e fazemos julgamento centenas de vezes diariamente,
raramente paramos ou nos esforçamos para raciocinar.
Quando
precisamos agir com rapidez, os atalhos mentais que denominamos
heurísticas, quase sempre nos ajudam. Graças ao processamento
automático das informações pela nossa mente, os julgamentos
intuitivos são automáticos. Mas o preço que às vezes temos que
pagar pode ser alto.
A
heurística
da representatividade
nos leva a julgar a probabilidade das coisas em termos de sua
representação de nosso protótipo para um grupo de itens. Ela
permite que façamos um julgamento rápido, mas também nos leva a
ignorarmos informações relevantes. Por exemplo, se você vê um
sujeito que sempre está vestido socialmente, provavelmente concluirá
que a profissão do mesmo seja advogado, gerente de banco, ou alguma
outra profissão que você conheça e que sabe que exige o uso de
traje formal.
O
uso da heurística intuitiva quando formamos julgamentos, nossa
ansiedade de confirmar as crenças que já possuímos e a habilidade
que temos de explicar nossos erros se combinam para criar o excesso
de confiança (a
tendência a superestimar a exatidão de nossos conhecimentos e
julgamentos).
Intuição
é
um sentimento ou pensamento imediato, automático e sem esforço.
Apesar de algumas vezes nos levar ao desastre, ela pode oferecer um
auxílio instantâneo quando necessário. Pensadores inteligentes dão
boas-vindas a suas intuições, mas as verificam diante das
evidências.
Um
teste adicional de racionalidade é verificar se duas formas
diferentes da mesma questão, logicamente equivalentes, produzirão a
mesma resposta.
Enquadramento
é
a maneira como uma pergunta ou afirmativa é elaborada. Diferenças
sutis de formulação podem alterar drasticamente nossas respostas.
Por exemplo, um cirurgião diz a alguém que 10% das pessoas morrem
ao se submeterem a determinada cirurgia. Outro diz que 90%
sobrevivem. A informação é a mesma, o efeito não.
LINGUAGEM
Os
fonemas
são
a unidade básica de uma língua. Para dizer a palavra “pai”,
pronunciamos os fonemas p,
a
e i.
Linguistas
identifica-ram 869 fonemas diferentes nas falas humanas, após um
levantamento com quase quinhentas linguagens, mas nenhum idioma usa
todos eles. Pessoas que crescem aprendendo um conjunto de fonemas,
normalmente têm dificuldade para pronunciar os fonemas de outra
língua. A linguagem de sinais também tem blocos de construção
pare-cidos com fonemas definidos pelos movimentos e formas das mãos.
Os
morfemas
são
as unidades elementares do significado. A maioria dos morfemas são
combinações de dois ou mais fonemas. Alguns, como “pai”, são
palavras, mas outros são apenas partes de palavras, como os prefixos
e sufixos.
A gramática é o sistema de regras, em uma linguagem, que permite que nos comuniquemos e compreendamos uns aos outros.
A
semântica
é
o conjunto de regras que usamos para extrair o significado a partir
dos morfemas, palavras e frases. A sintaxe
refere-se
às regras que usamos para organizar as palavras nas frases.
As
tentativas de explicar como adquirimos a linguagem despertaram uma
acirrada controvérsia intelectual. O behaviorista B.
F. Skinner propôs
que nosso aprendizado da língua se dava através dos princípios
familiares da associação
(entre a visão das coisas e os sons das palavras), imitação
(de palavras e sintaxe modulados por outros) e pelo reforço
(com sorrisos e abraços após se falar alguma coisa corretamente). O
linguista Noam
Chomsky defende
que nascemos com um dispositivo
de aquisição da linguagem
que nos prepara biologicamente para o aprendizado da língua e nos
equipa com uma gramática universal, que usamos para aprender uma
língua específica. Os pesquisadores cognitivos acreditam que a
infância é o período crítico para se aprender a linguagem falada
ou de sinais.
PENSAMENTO
E LINGUAGEM
O
pensamento e a linguagem são intricadamente entrelaçados.
Muitas
vezes, nós pensamos em imagens ao usarmos a memória procedural –
nosso sistema de memória inconsciente para as habilidades motoras e
cognitivas e associações condicionadas clássicas e operantes.
Pensar em imagens pode aumentar nossas habilidades quando praticamos
mentalmente eventos futuros.
A
linguagem, de fato, influencia o pensamento, mas se o pensamento não
afeta a linguagem, as novas palavras jamais poderiam existir. E novas
palavras, e novas combinações com antigas palavras, expressam novas
ideias.
Então,
podemos dizer que o pensamento afeta nossa linguagem, que, por sua
vez, afeta nosso pensamento.
Pensamento
e linguagem nos animais
Apenas
os humanos são capazes de dominar a expressão verbal ou por sinais
seguindo regras de sintaxe complexas. Não obstante, os primatas e
outros animais demonstram habilidades impressionantes para pensar e
se comunicar.
MYERS,
D.; Psicologia. Rio de Janeiro:LTC, 2012. Cap. 9
Resposta
do desafio: Há duas maneiras de se organizar 6 palitos para formarem
4 triângulos, conforme se vê abaixo.
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